Paulo Gabriel fala sobre saúde mental e a importante discussão no mundo das artes

Diretor de "Pietà, um Fractal de Memórias", fala sobre a necessidade de ampliar a discussão sobre o tema e de outros trabalhos relacionados a doenças da mente.

Paulo Gabriel

Foto: Edson Lopes Jr e Lucas Cabral

Atualmente dirigindo o espetáculo "Pietà, um Fractal de Memórias", em cartaz no Mi Teatro, em São Paulo, uma história que mergulha nas complexidades da saúde mental, Paulo Gabriel traça um amplo caminho ao abordar a temática em seus trabalhos.

Após a pandemia, a arte se tornou um reflexo ainda mais crucial das nossas vivências e desafios contemporâneos. "A saúde mental e o equilíbrio entre mente e corpo são fundamentais em meio ao caos da vida moderna, especialmente em grandes centros urbanos, onde os sintomas desse desequilíbrio se tornam mais evidentes em comportamentos depressivos e ou ansiosos. É sempre importante falar sobre, e nesse mês onde o assunto está em voga, com o ‘Setembro amarelo’ é uma excelente oportunidade", afirma Gabriel.

“O espetáculo foi adaptado para ser contado pelo prisma de uma dinâmica terapêutica contemporânea, como uma espécie de um jogo teatral visto em psicodramas, mas com um hibridismo terapêutico, algo próximo de uma constelação familiar. é uma criação teatral , repleta de simbolismos para dar sentido à dinâmica proposta, com todo respeito e cuidado que o tema pede. Acredito que seja um tema bastante necessário, visto que no período que estamos em cartaz é também o mês da campanha brasileira de conscientização sobre a prevenção do suicídio e a valorização da vida, então acho primordial termos mais espaços de debates sobre a temática”, explica.

Paulo Gabriel

Foto: Edson Lopes Jr e Lucas Cabral

O diretor já abordou temas como esquizofrenia e Alzheimer em outros projetos e expressa um desejo contínuo de explorar as diversas facetas da saúde mental em seus projetos. "Meu próximo longa-metragem, 'Desafetos', com rodagem para Outubro/26 examinará as relações amorosas e o impacto da tecnologia nas conexões afetivas, questionando como a velocidade e a superficialidade das interações modernas afetam nosso bem-estar e como isso infelizmente alterou a neuroplasticidade no se conectar, no sentir e no relacionar-se com o outro. ‘’Sucumbiu-se a qualidade relacional em prol da quantidade momentânea de endorfina barata", revela.

Paulo, que nutre uma paixão pela mente humana, diz que, caso não estivesse no mundo das artes, teria se dedicado à área da saúde - comportamental e mental. O universo da psiquê é por si só uma vasta experiência do humano e quanto mais se mergulha e se estuda a matéria, mais fascinante é. A intersecção entre arte e o estudo do humano gera insights valiosos que resultam para mim em um interesse genuíno em gerar e contar narrativas que traduzem os indivíduos e seu tempo presente. ", conta. Além disso, ele menciona outros projetos em andamento, como o longa "FATALIDADE", com Débora Duarte e Paloma Bernardi, que traz à tona discussões sobre etarismo e eutanásia.

Para ele, a teledramaturgia deve não apenas entreter, mas também gerar reflexão. "Temas como depressão e ansiedade devem ser abordados de maneira narrativa, em personagens ou como eixo narrativo da trama, ajudando a desmistificar essas condições que afetam tantas pessoas e que costumeiramente são vistas como doenças menores, mas que podem levar uma pessoa à situações adversas, estagnantes e em alguns casos infelizmente atentar contra a sua própria vida para estancar a dor", enfatiza.

Paulo Gabriel

Foto: Edson Lopes Jr e Lucas Cabral

No entanto, o artista ressalta a necessidade de cuidar da saúde mental dos profissionais do setor criativo. "A arte é por si só um setor instável e o profissional da área deve minimamente entender essa engrenagem e se proteger das adversidades que o setor oferece. A instabilidade financeira é uma delas e pode ser um gatilho. Ao mesmo tempo, ter a clareza que a Arte é por si só movimento e ser um campo seguro, seria algo anacrônico ao que a arte deve buscar, é um dado relevante a ser levado em consideração pelos profissionais do setor. Porém, de certo a saúde mental dos profissionais deve sim, ser um campo minimamente seguro, ou seja, encontrar um ambiente seguro para criar e doar sua expressão artística é fundamental. As estruturas e corporações criativas hoje estão atentas a isso e existe algum cuidado para este tema, pois queira ou não, o limiar nesta profissão, entre o âmbito do pessoal e profissional é ainda muito tênue, muitas vezes. Por isso, é sempre relevante estar atento aos sinais, às vezes um abraço, um bom dia, um café para ouvir o outro, pode salvar um colega de profissão, ou seu vizinho ou um familiar.""

Com "Pietà", o diretor observa que houve uma acolhida calorosa do público, que se identificou com as vivências apresentadas. "Após o espetáculo, durante toda essa temporada, promovemos, depois das sessões de domingo, debates com profissionais da área da saúde mental, que permitem ao público compartilhar suas próprias histórias em um espaço seguro, o que enriquece a experiência e a conexão com a obra e por fim amplia a discussão sobre o tema’’ completa.

Siga o Canal Tadeu Ramos no Instagram

Comentários