Em entrevista, o diretor aborda a adaptação do livro de Gabriel Abreu para os palcos e as escolhas da encenação
O diretor Nicolas Ahnert | Foto: Caio Oviedo
A adaptação teatral do livro "Triste não é ao certo a palavra", escrito por Gabriel Abreu, chegou aos palcos propondo uma imersão nas complexidades das relações humanas e no luto não linear. Para entender o processo de transposição dessa narrativa híbrida da literatura para o teatro, o Canal Tadeu Ramos conversou com o diretor Nicolas Ahnert.
Estrelada pelo ator Thalles Cabral, a montagem foge dos clichês ao explorar a dor da perda permeada por humor, cinismo e as angústias de uma juventude contemporânea. Na entrevista a seguir, Nicolas revela como um encontro despretensioso em uma livraria deu origem à peça, explica as escolhas estéticas e simbólicas da cenografia — como a troca da água pela terra — e analisa as sombras e fragilidades do protagonista. Confira o bate-papo na íntegra.
Canal Tadeu Ramos: Você mencionou que o primeiro contato com o livro "Triste não é ao certo a palavra" ocorreu de maneira totalmente despretensiosa em uma livraria. Além do hibridismo de linguagem, o que fisgou o seu olhar de diretor para perceber que aquela literatura precisava ser transformada em palco e transpirar ao vivo?
Nicolas Ahnert: Eu estou sempre em busca de histórias que revelam as complexidades das relações humanas. E quando li "Triste não é ao certo a palavra" encontrei nas entrelinhas uma relação entre mãe e filho que não parecia plenamente resolvida. Isso despertou uma pergunta que ficou dias na minha cabeça: "como é perder alguém cuja relação foi construída em cima de silêncios?". Não era apenas mais uma história de luto, mas uma tentativa ilusória desse filho de recuperar uma Mãe que nunca conseguiu conhecer.
Canal Tadeu Ramos: O protagonista vive um luto iminente, mas a peça foge do lugar-comum ao revestir essa dor com humor, cinismo e traços de arrogância. Como foi o trabalho de direção com o ator Thalles Cabral para equilibrar essa frieza aparente com a vulnerabilidade profunda do personagem, evitando que ele fosse lido apenas como vítima ou herói?
Nicolas Ahnert: O nosso maior interesse na sala de ensaio era encontrar as camadas que dessem complexidade ao Filho. O que existe para além da dor da perda? Ressentimento, raiva, medo. Negação. Passamos por todas essas fases. E foi a partir delas que desenvolvemos quem esse personagem era. Nos conectamos com o Filho porque ele é repleto de defeitos, e não sabe lidar com aquele sentimento. Ele é humano, e por isso nos identificamos.
Thalles Cabral no espetácuo "Triste! Triste... Triste?" | Foto: Caio Oviedo
Canal Tadeu Ramos: A encenação propõe imagens fortes para ilustrar o estado emocional de quem vivencia uma orfandade prematura. Em determinado momento, notamos uma escolha visual muito simbólica. O que motivou a mudança da presença da água pela terra em cena na nova temporada e como essa transição material traduz o arco dramático do personagem?
Nicolas Ahnert: A mudança partiu de uma impossibilidade técnica de utilizar água no novo teatro. O que começou como frustração, logo se tornou solução criativa. Gosto de pensar o espetáculo para os diferentes espaços que ele possa ocupar. No caso do "TRISTE!", essa poeira escura faz parte do meu imaginário sobre o que é memória. Para mim, é um campo lamacento, feito de poeira e água, repleta de restos e sobras, como um filme do Tarkovsky. Então quando descobrimos que não poderíamos utilizar esse elemento, já sabíamos o que colocar no lugar. E sinceramente, acho que combinou muito.
Canal Tadeu Ramos: A montagem amplia o universo da obra original para discutir os anseios de uma geração que você define como 'anestesiada'. De que maneira a urgência desse filho em reescrever as memórias da mãe dialoga com a crise de identidade do jovem contemporâneo?
Nicolas Ahnert: Essa camada da peça é uma das que mais me toca. Talvez por eu fazer um pouco parte dessa geração, meio perdida. Eu me identifico com ele. É uma fase em que você ainda está descobrindo quem você é de verdade, o que você quer da vida. Então, quando o Filho perde a Mãe, ele perde uma parte importante de si mesmo. Ele está saindo de um egoísmo solipsista, para começar a enxergar um mundo além de si. E sem a Mãe, ele não sabe como seguir. Quem ele é agora? É uma pergunta que nos fazemos durante toda a vida.
Canal Tadeu Ramos: Você destacou o uso narrativo de cartas, bilhetes, lembretes e fotos presentes no texto original do Gabriel Abreu. Como se deu o desafio de traduzir essa materialidade tão literária e documental para a ação cênica no monólogo, mantendo a narrativa teatral fluida?
Nicolas Ahnert: A dramaturgia percorre diferentes caminhos dependendo do estado emocional em que o Filho está. Ela brinca com a própria estrutura, quebra a convenção teatral, tudo isso a favor da história que estamos contando. A ideia era se aproximar desse hibridismo da literatura, mas do nosso jeito. A solução foi acompanhar a jornada do Filho pelas memórias da Mãe de uma forma não linear, contribuindo para colocar o ator e plateia no mesmo estado confuso em que o Filho se encontra. Acredito que a forma como uma história é contada é tão importante, ou até mais, quanto a história em si. Esse foi um dos pontos principais aos quais me atentei ao escrever o texto.
Canal Tadeu Ramos: Contar com a liberdade criativa dada pelo próprio autor do livro deve ter sido fundamental para o desenvolvimento da peça. Durante esse processo de desvendar quem é esse filho 'para além da literatura', qual foi a descoberta mais surpreendente sobre o personagem que só se revelou na sala de ensaio?
Nicolas Ahnert: Acredito que o egoísmo e a arrogância do Filho. Não são características fáceis de se assumir. Mas estão em todos nós, em algum grau. E para que pudéssemos, de verdade, nos compadecer com ele, precisávamos acessar suas sombras, para além da dor. O luto não é linear, não é óbvio, ele revela o que há de pior em nós. E acredito que é na fragilidade que nos conectamos. Ele é só um menino perdendo a mãe. E tem muita humanidade nisso.
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