Confira a entrevista com Augusto Baraldi e Fernando Américo sobre o processo criativo, novidades e bastidores do espetáculo
Foto: Arquivo Pessoal
Inspirado na desconstrução dos clichês das produções hollywoodianas, o espetáculo "Não É Um Filme" investiga as relações afetivas contemporâneas a partir do cotidiano de quatro homens gays. Com dramaturgia de Fernando Américo e direção de Augusto Baraldi, o projeto de estreia da Auto Peças Companhia de Teatro retorna ao palco do Teatro Pequeno Ato, impulsionado pelo sucesso de público em suas apresentações anteriores.
Confira agora uma entrevista exclusiva:
Canal Tadeu Ramos: Fernando, o texto divide a vivência afetiva gay contemporânea em quatro perfis muito distintos — do romantismo imediato de João ao desapego de Caio nos aplicativos. Como foi o processo de equilibrar essas vozes na dramaturgia para desconstruir o amor idealizado sem cair em estereótipos limitantes?
Fernando: Eu brincava que esse texto era um surto esquizofrênico, onde os quatro personagens eram eu mesmo. Isso mudou quando entrou a direção e os atores, que trouxeram outras camadas para os personagens e temas da peça. O que ficou foram as características bem marcadas de cada um, que ajudam também a contar a história deles. Para não cair nos estereótipos fáceis, a busca foi por deixar esses personagens menos previsíveis, e mais complexos. João é um romântico, mas ele também é o mais realista, o que melhor enxerga a situação toda. O Caio é viciado em aplicativos, sexo casual, tem uma coisa muito forte com a autoimagem, mas ao mesmo tempo é bastante inseguro.
Canal Tadeu Ramos: Augusto, a obra se propõe a ser uma comédia romântica que bate de frente com a "vida real", lidando com inseguranças e expectativas frustradas. Qual foi o principal desafio na direção para afinar esse tom, garantindo que o ritmo do humor não esvaziasse a profundidade emocional dos conflitos de Bernardo?
Augusto: Durante nossos trabalhos de mesa, por incrível que pareça não conseguíamos ter a dimensão de que estávamos prestes a ensaiar uma comédia. Juro! Sabíamos que tinha muito romance, e o drama que ocasionalmente já estava ali devido ao texto. Foi a partir da livre espontaneidade dos atores, principalmente do ator que interpretava o Bernardo, em trazer para dentro dos ensaios experiências vividas por ele fora do espaço cênico. As experiências viravam jogo, e eu acompanhava o exercício de maneira mais aguçada para identificar onde ali poderíamos extrair, a partir das expectativas que se tornavam frustradas e consequentemente cômicas, e onde a partir delas nasciam as inseguranças que moldavam de certa forma a figura do Bernardo. O resultado do jogo cumpriu a missão de manter o equilíbrio entre essa profundidade emocional e o humor, sem causar a sensação de estarmos acompanhando um personagem desfavorecido de ambos.
Canal Tadeu Ramos: O título "Não É Um Filme" já sugere uma quebra de expectativa com as narrativas de finais felizes de Hollywood. De que forma a dinâmica dos aplicativos de relacionamento e o sexo casual entraram como catalisadores para modernizar essa estrutura clássica da comédia romântica no teatro?
Fernando: O Bernardo começa a peça falando que queria contar sua versão da história em um filme, porque essa é a referência que ele tem. Ele e todo mundo. A gente cresce tendo como referência esses filmes hollywoodianos, essas narrativas com final feliz e com cada coisa no seu lugar. Depois aprendemos que não é assim que funciona na vida, que as relações não se organizam de forma tão clara. Às vezes nem se organizam! A própria estrutura do texto brinca com isso, essa fórmula da comédia romântica, porque tem o casal, o melhor amigo engraçado, o ex que aparece para atrapalhar. Só que a presença dessas dinâmicas contemporâneas de relacionamento que você comentou entram no caminho, tornam tudo imprevisível, quase caótico, longe do que seria um roteiro de cinema.
Augusto: Interessante pensar que quando nos debruçamos em cima do texto, que já apresentava o uso da tecnologia dos aplicativos de relacionamento como mais um personagem para contar essa história, tivemos esse cuidado em diversos momentos de dimerizar onde ele poderia aparecer mais e onde menos. A brincadeira e o jogo estavam sempre em prol de gerar uma espécie de semelhança com as comédias românticas dos anos 2000: as passagens secas de uma cena para outra e também as semelhanças com os personagens característicos desses filmes. O uso dos aplicativos acaba reforçando e de certa forma ampliando por quais outros meios esses personagens podem vir a se relacionar e também se frustrar quando o assunto é se apaixonar ou até mesmo fazer um sexo casual.
Canal Tadeu Ramos: O material do espetáculo destaca que a peça faz um recorte da experiência do homem gay, mas acrescenta o adendo "(mas não só)". Durante as temporadas anteriores, como vocês perceberam a identificação do público que está fora da comunidade LGBTQIAPN+ com as vulnerabilidades desses quatro amigos?
Augusto: Era impossível terminar qualquer uma das sessões do espetáculo sem ter uma pessoa que não faz parte da comunidade, chegando até nós e comentando que em determinada cena, que em determinado personagem se viu completamente. Isso nos deixava muito aguçados para perguntar: "Hum, senta aqui, me conta mais sobre isso!", porque víamos que realmente as situações são realmente compartilhadas por todo mundo. A vulnerabilidade, quando ela é identificada em você, quando compartilhada pelo outro, isso automaticamente gera uma aproximação muito grande com o que e por quem revela, então isso, ao final do espetáculo, quando conversávamos com as pessoas, vinha de forma muito genuína.
Fernando: Tínhamos a preocupação de não tornar a peça muito nichada, apesar do público-alvo bem definido. E durante a primeira temporada, tivemos um retorno muito grande de pessoas heterossexuais, rolava uma identificação em vários aspectos, principalmente nas dinâmicas dos aplicativos, e na coisa do "boy lixo"; que não sabe o que quer. (Era sempre um "boy"; nesse caso, não dá para fugir). A peça retrata quatro homens gays, então é um recorte específico mesmo dentro da comunidade LGBTQIAPN+. Foi muito massa ver que outras pessoas se conectavam com as experiências e com as personagens. Todo mundo já teve o coração partido por um "Bernardo" na vida, e todo mundo conhece um "Caio". Se não, é porque o Caio do seu grupo é você!
Canal Tadeu Ramos: A trajetória da peça foi muito expressiva, passando de leituras em 2024 para 12 sessões esgotadas no Pequeno Ato e um convite da SP Escola de Teatro. Como a chegada das mudanças de equipe e do novo elenco para a temporada de 2026 alterou a dinâmica no palco ou trouxe novas camadas ao texto original?
Fernando: O texto original já não é mais o texto original desde a primeira leitura, com o Augusto e o elenco. Cada pessoa que entrou no projeto trouxe uma nova camada, novas perspectivas sobre o que a gente estava contando. Isso acontece de forma direta, com os atores propondo novas falas, e também de forma subjetiva, às vezes simplesmente pela forma como o texto é falado, como a cena é dirigida, tudo isso adiciona cores ao que está escrito. O Gui de Rose, por exemplo, viu no Olavo uma coisa que eu não tinha visto, defendeu até o fim, e hoje o personagem é muito mais rico do que na primeira versão do texto. Já o Rodrigo Rei eu pedi para que adicionasse coisas a uma fala do João, um olhar que só poderia vir dele, das vivências dele, e ficou muito especial. O César Frassom também propôs diálogos inteiros do Caio. E da temporada de estreia para essa, o Lucas Cuevas entrou para o elenco, e em um espetáculo com quatro atores em cena, isso muda muita coisa! Eu vi dois Bernardos nascerem do mesmo texto, os dois diferentes do que eu tinha na cabeça quando escrevi, só pela forma como cada ator enxergou e escolheu fazer o personagem.
Augusto: Tivemos realmente uma surpresa muito positiva com a casa cheia em todas as sessões do espetáculo e sabíamos que queríamos dar vida longa a ele. Agora em 2026 nos adaptamos com a chegada do Lucas Cuevas na equipe, o que foi ótimo porque víamos novamente o brilho nos olhos, de resgatarmos toda a energia e vontade de voltar a contar a história do Bernardo, do Caio, do Olavo e do João. O Lucas traz uma vibração para o Bernardo bem diferente. Ele escolhe apresentar o personagem de uma outra forma, e quando uma pessoa nova chega, basicamente já existe um desenho de cena que sabemos que funciona e até mesmo uma "forma" de fazer que também sabemos que dá certo, mas como diretor eu gosto muito de deixar que a criatividade do ator explore novas maneira e jeitos de fazer e quando o ator está disponível e aberto a entrar na proposta do outro e a propor um jogo diferente que surpreenda o ator parceiro dele, isso sim altera de forma considerável e positiva a criação, as leituras, e gera consequentemente outras camadas para a peça.
Fernando: A gente sempre recomenda a quem assistiu a peça em 2025 que volte, porque vai ver muita coisa nova.
Canal Tadeu Ramos: Sendo este o projeto de estreia da Auto Peças Companhia de Teatro, de que maneira o sucesso comercial e a recepção calorosa do público com essa primeira montagem moldaram a identidade da companhia para os futuros projetos que vocês planejam desenvolver?
Augusto: Durante o desenvolvimento do "Não É Um Filme" , nós (Augusto e Fernando) já sonhávamos e compartilhávamos o desejo de desenvolver outros projetos, seja durante a temporada de estreia ou depois. Eis que estamos com dois projetos já em andamento. Felizes por formalizar nosso trabalho como companhia e também ainda mais felizes por terem pessoas que vão se interessando pelo nosso fazer teatral.
Fernando: Ambos os projetos são bem diferentes entre si, e bem diferentes do “Não É Um Filme”. Um deles, que o Augusto está dirigindo, chamado "Valsas", tem um elenco totalmente feminino, e está sendo escrito com a dramaturga Juliana dos Santos, a partir de um texto do Nelson Rodrigues. O outro é um texto autoral, que eu estou dirigindo, e até tem um personagem gay (acho que é uma bandeira que eu carrego inconscientemente, de sempre trazer essa representatividade, sempre ter um gay ali na história), mas não fala de relacionamentos, e sim de amizade, enfim, vai para outros lados. Mas a identidade da companhia está impressa em todos eles, na forma de fazer, de acreditar no teatro independente, agregando gente interessada e construindo junto. Quando esses projetos novos estrearem, talvez a gente veja mais dessa identidade, mas por enquanto ele está nesse jeito de se relacionar com o fazer teatral mesmo.
Augusto: Somos um grupo de teatro independente cientes da realidade que é desenvolver um espetáculo neste formato. Estamos na construção da nossa identidade como grupo, escolhendo e nos apaixonando por nossos projetos. Buscando aberturas através dos editais para conseguirmos ter mais recursos para o desenvolvimento dos trabalhos e também de forma justa, arcar com o trabalho dos artistas que se dedicam com a gente.
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