"Ókun: Cura Mar de Dentro": Grupo Identidade Oculta leva teatro às margens e às águas da Represa Billings
Primeiro projeto do Grupo Identidade Oculta propõe uma experiência de escuta do território e das águas
Foto: André Bueno
Às margens da Represa Billings, no Grajaú, a paisagem deixa de ser apenas cenário para se tornar parte da dramaturgia. É por esse território, entre águas, ruas, árvores e memórias, que o público acompanha "Ókun: Mar de Dentro", novo espetáculo do Grupo Identidade Oculta, com dramaturgia e direção de Paulo Henrique Sant’Anna. A montagem propõe um percurso cênico em que teatro, música, dança e ritual se encontram para falar de memória, resistência e celebração, ao mesmo tempo em que lança um olhar para as questões sociais e ambientais que atravessam a vida no extremo sul da cidade.
A temporada gratuita acontece em setembro, no Parque Linear Cantinho do Céu e no Parque Linear Lago Azul. Nesta segunda etapa, parte do espetáculo será realizada dentro de uma embarcação, em uma rota náutica pela Represa Billings, com público e artistas compartilhando a experiência cênica durante a travessia.
A escolha do percurso como forma de encenação está diretamente ligada à dramaturgia da obra. Para Sant’Anna, caminhar junto é também uma maneira de produzir conhecimento e experiência. “Esse espetáculo propõe uma travessia, um rito coletivo em busca de cura. Um exercício de mudança de estado que convoca o público e o elenco a estarem presentes no encontro”, afirma o diretor. “Quem vem assistir ao espetáculo precisa acionar a coragem de sentir. Vivemos tempos em que é preciso muita coragem para sentir”.
A proposta nasceu de uma série de perguntas dirigidas ao próprio território. O que diria o vento se fosse possível ouvi-lo? O que a represa teria a contar? Quais memórias estão guardadas no chão, nas paredes, nas plantas e nas águas? A partir dessas questões, a dramaturgia foi construída por meio de manifestos que deram origem a experimentos cênicos e direcionaram a criação. “O espetáculo parte da necessidade de ultrapassar o limite da denúncia, de evidenciar e problematizar as mazelas que atravessam os corpos pretos e periféricos na cidade e no país”, explica Sant’Anna. Para o diretor, a criação se movimenta entre “busca, cura, movimento, silêncio e revolta”, sem abrir mão da poesia e da beleza como ferramentas de transformação.
Foto: André Bueno
A música ocupa papel central em "Ókun: Cura de Dentro". As canções autorais são interpretadas ao vivo pelos próprios atores e funcionam como parte da dramaturgia, criando ritmos, atmosferas e transições ao longo do percurso. A relação de Sant’Anna com a música vem de sua própria trajetória artística, iniciada ainda na adolescência, quando participou de um grupo de samba no território. No espetáculo, essa experiência aparece na construção de uma dramaturgia que, segundo o diretor, foi pensada a partir de uma métrica musical.
“A música vai preparando o corpo para receber aquilo que vem depois. É como se estivesse azeitando os poros, hidratando a pele, para que a gente possa absorver os nutrientes da arte”, explica. Ao longo do percurso, os espectadores são convidados não apenas a assistir, mas a caminhar, ouvir, observar e experimentar o território. A experiência desloca a relação tradicional entre palco e plateia e coloca o público dentro da própria paisagem que alimenta a obra.
Ao final, a travessia proposta pela montagem aponta para uma ideia de cura que não se restringe ao indivíduo. Se as águas precisam voltar a respirar, também é preciso olhar para aquilo que as pessoas carregam e acumulam ao longo do tempo. A cura, nesse sentido, passa pela relação entre corpo, território, memória e coletividade.
Ficha Técnica: Idealização, Dramaturgia, Direção e Concepção Artística – Paulo Henrique Sant’ Anna. Elenco – Janaína Soares, Liliane Rodrigues, Frank Oliveira, Wilson Oliveira, Lay Pinheiro, Carol Pfeffer, Vitória Marques, Isabela Alves e Paulo Henrique Sant' Anna. Composição Musical – Paulo Henrique Sant’ Anna. Figurinista – Milena Nascimento e Pimzera. Produção de Figurino – Mile Lab. Cenografia e Construção de Adereços Cênicos – Frank Batula. Cenotécnica – Calu Batista e José. Confecção de Bonecos – Ateliê FonFinFan. Supervisora de Movimento Cênico – Jéssica Santos. Provocação Cênica – Ipojucan Pereira. Preparação Vocal – Fabiana Cozza. Oficina Corpo Brincante – Pedro Peu. Técnico de Som e Motorista – Carlos Silva. Coordenação de Redes Sociais e Comunicação – Janaína Soares. Assessoria de Imprensa – Nossa Senhora da Pauta. Designer Gráfico – Luís Fernando Barbosa. Social Mídia – Liliane Rodriguês. Fotos de Divulgação – André Bueno. Audiovisual – Isabela Alves e Vinicius Nevire. Preparação de Alimentação da Equipe – Laís Guimarães. Produção Geral e Executiva – Grupo Identidade Oculta. Coordenação de Produção – Janaína Soares. Assistentes de Produção – Ashley Martins, Alberto Oliveira e Carlos Silva. Parcerias – Meninos da Billings, CEU Navegantes, Casa Ecoativa, Parque Linear Cantinho do Céu. Realização – Grupo Identidade Oculta, Associação Cultural Cafundós, Secretária Municipal de Cultura, Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo.
ÒKUN: CURA MAR DE DENTRO
Parque Linear Lago Azul
Foto: André Bueno
Temporada: 12 a 22 de setembro
Horário: Terças, Sextas e Sábados, às 14h
Local: Parque Linear Cantinho do Céu – Rua Nossa Senhora de Fátima, 82 – Grajaú
Ingressos: Gratuito | Reservas de ingressos pelo site Sympla
Duração: 90 minutos
Classificação: Livre
Parque Linear Lago Azul
Temporada: 25, 26 e 29 de setembro
Horário: Sexta, Sábado e Terça, às 14h
Local: Rua Beija-Flor de Cactos – Grajaú
Ingressos: Gratuito | Reservas de ingressos pelo site Sympla
Duração: 90 minutos
Classificação: Livre
Rota náutica pela Represa Billings: parte do espetáculo é realizada dentro de uma embarcação, com público e artistas compartilhando a experiência cênica durante a travessia pela represa.
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