Em conversa com Marcelo Fava, do projeto M ARTE, a dramaturga reflete sobre seus 20 anos de carreira, o processo de escrita e a temporada de seu novo espetáculo no Rio de Janeiro.
"A Pequena Prisão" | Foto: Marcelo Fava
Com mais de vinte anos de carreira e uma obra reconhecida por tocar em temas urgentes e incômodos, Daniela Pereira de Carvalho é um dos grandes nomes da nossa dramaturgia. Atualmente em cartaz no Teatro Poeirinha, no Rio de Janeiro, assinando a adaptação do espetáculo "A Pequena Prisão", ela recebeu nosso parceiro Marcelo Fava — arquiteto e criador do projeto de curadoria cultural M ARTE — para um bate-papo exclusivo. Na conversa, a autora relembra sua formação, os desafios do mercado, a relação intrínseca entre arte e política e o que ainda lhe causa frio na barriga diante da página em branco.
Confira a entrevista na íntegra a seguir.
DANIELA PEREIRA DE CARVALHO — O TEATRO COMO POLÍTICA
Antes de assinar a dramaturgia de "A Pequena Prisão", Daniela Pereira de Carvalho já carregava mais de vinte anos de carreira e uma obra construída em cima de temas que incomodam. Entrevistei ela durante minha estadia no Rio de Janeiro, e boa parte da conversa foi sobre como ela chegou até aqui e o que continua igual desde o primeiro texto.
A formação
Daniela nunca trabalhou como atriz, embora tenha passado perto disso. Na adolescência, fez cursos livres — entre eles, com Domingos Oliveira — influenciada pelo fenômeno geracional de "Confissões de Adolescente". Mas a vontade sempre foi escrever para o teatro, não atuar nele. Nos anos 1990, sem graduação em dramaturgia disponível no Rio, ela fez os dois caminhos possíveis ao mesmo tempo: o curso técnico de interpretação da CAL e Teoria do Teatro na UniRio.
"O curso da CAL foi fundamental: passar pela formação de atriz me deu o entendimento de cena e de tempo rítmico da fala que uso até hoje na minha escrita", ela conta. Mas foi na UniRio, sob a mentoria de Flora Süssekind, que veio a virada. "Ali eu realmente me encontrei e me formei como dramaturga."
Depois de mais de vinte anos escrevendo, ela diz que duas coisas nunca mudaram: o medo diante da página em branco, "aquela sensação desesperadora de que eu não tenho capacidade para escrever esse texto", e o prazer do processo, que segundo ela só cresceu com o tempo.
Como escreve
"A Hora do Boi" | Foto: Bob Sousa
Um traço se repete nas peças de Daniela: um único ator interpretando várias pessoas. Ela não trata isso como marca autoral, mas como sintoma de um teatro cada vez mais precarizado economicamente, em que monólogos se tornaram mais viáveis. "Essa limitação financeira acabou gerando uma pesquisa estética muito rica", diz. O dispositivo aparece em peças como "Cachorro Enterrado Vivo" e "A Hora do Boi", e permite, segundo ela, uma dialética dramatúrgica difícil de alcançar de outro jeito, com o mesmo corpo assumindo forças que se enfrentam.
As histórias que ela escreve chegam de formas que ela descreve como fragmentadas e aleatórias — uma notícia de jornal, um livro, uma conversa de família. Uma delas nasceu de um caso real contado por um primo: um ladrão em Buenos Aires que, ao roubar um celular, descobriu que a vítima era pedófila e entregou o próprio aparelho à polícia como prova. Virou o texto "Comportamento".
Teatro e política
"Cachorro Enterrado Vivo" | Foto: Juliana Chalita
Antes de falar sobre política em sua obra, Daniela faz questão de separar os planos."Tenho horror à política partidária", diz, brincando que é apenas "marinista": vota em Marina Silva, não importa o partido. O interesse dela pelo tema vem de outro lugar, ancorado em Deleuze e Guattari: a ideia de que "antes do ser, há a política", de que só compreendemos nossa existência através de uma construção psicopolítica. Para ela, o teatro que não provoca essa esfera se rebaixa a entretenimento passivo. "Se for só pra entreter, a Netflix faz isso muito melhor", resume.
Essa visão aparece também na crítica que ela já fez ao rebatismo de teatros históricos por empresas patrocinadoras, como no caso do Teatro Tereza Rachel. Ela cunhou a expressão "theatre washing" em tom de deboche, numa analogia direta ao green washing. "A minha crítica não é ao dinheiro, mas à perda da memória", explica. Pra ela, deveria haver mediação institucional para que os contratos de naming right preservassem a identidade dos espaços. O nome Tereza Rachel não representa só uma atriz, mas uma produtora que viabilizou marcos da nossa cultura.
SOBRE DANIELA PEREIRA DE CARVALHO
Foto: Arquivo Pessoal
Daniela Pereira de Carvalho é dramaturga, com mais de vinte anos de carreira dedicados ao teatro. Formada em interpretação pela CAL e em Teoria do Teatro pela UniRio, é autora de peças como "Cachorro Enterrado Vivo", "A Hora do Boi" e "Comportamento". Em 2026, assina a dramaturgia de "A Pequena Prisão", adaptação do livro de Igor Mendes em cartaz no Teatro Poeira, no Rio de Janeiro.
SOBRE MARCELO FAVA
Foto: Gabriel Diogo
Marcelo Fava é o criador do M ARTE ( @m_arte90 ), projeto pessoal de curadoria cultural dedicado a teatro, cinema, música, exposições e literatura, sempre a partir de experiências presenciais. É também arquiteto, com atuação em visualização 3D, arquitetura de interiores, cenografia, direção de arte, fotografia e produção de vídeo. Nascido em São Borja (RS), vive em São Paulo desde 2013.
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