Em entrevista, o ator e diretor Marco Antônio Barreto revela os bastidores da montagem que adapta clássicos do terror através de uma intensa pesquisa corporal e psicológica.
Foto: Sérgio Santoian
O horror psicológico e a investigação das obsessões humanas ganham o palco no espetáculo Enquanto Você Dorme, nova produção da companhia Santa Víscera Teatro. Inspirada em contos de mestres da literatura internacional como Edgar Allan Poe, Guy de Maupassant e John Collier, a montagem celebra os 17 anos de trajetória do grupo e propõe uma imersão profunda nos medos e desejos que habitam a mente humana.
Em entrevista exclusiva ao Canal Tadeu Ramos, o ator e diretor artístico Marco Antônio Barreto, detalhou o processo de concepção do espetáculo, que conta com a direção assinada por Graciane Pires. O trabalho traduz a atmosfera densa dos contos literários para a linguagem cênica a partir do foco central na atuação e no Método das Ações Físicas. Confira:
Canal Tadeu Ramos: O espetáculo adapta universos de grandes mestres como Edgar Allan Poe, Guy de Maupassant e John Collier. Como foi o processo de traduzir a atmosfera densa e psicológica da literatura de terror para a linguagem cênica do Santa Víscera Teatro?
Marco Antônio Barreto: Todos os processos de criação do Santa Víscera partem do ator. Os elementos cênicos, a música, a trilha sonora e o cenário vão surgindo ao longo do processo, a partir daquilo que os atores descobrem em cena. Em Enquanto Você Dorme, começamos com o desejo de criar um espetáculo que remetesse às antigas histórias contadas ao redor do fogo. Naquele momento, ainda não havíamos escolhido os autores ou os contos que seriam trabalhados.
Desde a fundação da companhia, nossa pesquisa se apoia no Método das Ações Físicas, na Análise Ativa do texto e em treinamentos voltados para o ator, como os Exercícios Plásticos de Jerzy Grotowski, técnicas da Antropologia Teatral e as qualidades de movimento de Laban. É a partir desse treinamento que nossas improvisações começam a acontecer. Um exercício de aquecimento pode se transformar em um jogo entre os atores; o jogo, em uma improvisação; a improvisação, em um étude; e o étude, finalmente, em uma cena.
Foi desse processo que as histórias começaram a surgir. Antes de chegarmos à literatura, o próprio corpo dos atores já estava revelando personagens, conflitos e situações dramáticas. Só depois desse primeiro momento escolhemos os contos que dialogavam com o material que havíamos criado. Foi assim que chegamos a O Coração Delator, A Mãe dos Monstros e A Poção (The Pursuer, em inglês).
A partir daí, começamos a trabalhar diretamente com os textos, investigando como traduzir suas atmosferas psicológicas pelas ações físicas. Nosso interesse não era simplesmente ilustrar as histórias, mas encontrar no corpo dos atores a materialidade daqueles conflitos, fazendo com que o terror se manifestasse em cena por meio das ações, das relações e das imagens teatrais. Nosso interesse não era simplesmente ilustrar as histórias, mas encontrar no corpo dos atores a materialidade daqueles conflitos.
Canal Tadeu Ramos: O Santa Víscera Teatro celebra 17 anos de trajetória com esta montagem, que já passou por importantes espaços como Sesc Tijuca, Sesc 24 de Maio e Itaú Cultural. De que maneira essa bagagem de 17 anos influenciou a concepção e a maturidade cênica de Enquanto Você Dorme?
Marco Antônio Barreto: Acredito que, como tudo na vida, o teatro também é uma questão de tempo, dedicação e experiência. Ao longo desses 17 anos, o Santa Víscera acumulou muitas horas de voo. E, com elas, fomos aprendendo e aprimorando nosso trabalho. No início, estávamos muito concentrados no treinamento físico e na expressividade externa do ator. Com o tempo, percebemos que precisávamos aprofundar também a vida interna, encontrar uma organicidade entre essa expressividade que desenvolvemos no treinamento e as justificativas internas dos personagens.
Hoje, existe um cuidado muito grande com aquilo que o ator faz, fala e imagina em cena. Não basta executar uma ação com precisão ou construir uma imagem expressiva. É preciso que essa ação tenha uma necessidade interna, uma verdade que sustente o que acontece no palco. Acredito que esse aprofundamento seja uma das marcas da maturidade que conquistamos como companhia.
Outra coisa que os 17 anos de trajetória nos trouxeram foi uma capacidade muito grande de adaptação e de relação com o público. Em trabalhos como o Teatro à La Carte, por exemplo, a plateia escolhe as cenas que deseja assistir, conversa com os atores e interfere diretamente no espetáculo. Em Enquanto Você Dorme, a relação é diferente. O espectador não interfere na história, mas se torna cúmplice dos acontecimentos. Os personagens compartilham diretamente com a plateia alguns de seus pensamentos, desejos e conflitos. É como se, em determinados momentos, o monólogo interno dos atores se tornasse também uma experiência do espectador.
Essa cumplicidade é resultado de uma experiência que fomos construindo ao longo dos anos: a capacidade de estabelecer uma relação verdadeira com a plateia, mesmo quando ela não participa diretamente da ação. A maturidade do grupo está também em compreender que não basta executar uma ação com precisão: é preciso que ela tenha uma necessidade interna, uma verdade que sustente o que acontece em cena.
Foto: Arquivo Pessoal
Canal Tadeu Ramos: A dramaturgia se divide em três histórias distintas — envolvendo um homem que planeja matar seu paciente, um jovem em busca de poções entre a vida e a morte e uma mulher reclusa conhecida como “A Mãe dos Monstros”. Como você conduziu a direção para interligar essas três narrativas distintas em cena?
Marco Antônio Barreto: Antes de tudo, é importante dizer que a direção do espetáculo é de Graciane Pires, que tem uma capacidade muito particular de conduzir os atores e extrair o melhor de cada um. Ela possui um olhar muito atento às potencialidades dos intérpretes e sabe trabalhar as particularidades de cada ator na construção das personagens.
As três histórias não acontecem simultaneamente. Elas são apresentadas uma depois da outra. O que estabelece uma conexão entre elas é, sobretudo, a maneira como acompanhamos os personagens e temos acesso aos seus pensamentos e às justificativas que sustentam suas ações.
Não estamos diante de personagens que simplesmente praticam atos monstruosos. Cada um deles tem uma lógica própria, uma justificativa interna para aquilo que faz. Mesmo quando suas atitudes são moralmente questionáveis, para eles existe uma razão, uma necessidade ou uma convicção que os leva a agir daquela maneira. E, de certa forma, isso também fala sobre nós. Muitas vezes, na vida, podemos cometer erros acreditando que estamos fazendo a coisa certa.
Os personagens compartilham seus pensamentos diretamente com a plateia. É quase como se o espectador tivesse acesso ao monólogo interno de cada um. Isso cria uma relação de proximidade e cumplicidade, porque acompanhamos não apenas o que eles fazem, mas também o caminho de pensamento que os leva até suas decisões. A direção constrói, a partir disso, uma atmosfera de suspense e terror que não depende do susto pelo susto. O espectador acompanha a trajetória dessas pessoas, cria uma conexão com elas e começa a se perguntar até onde são capazes de chegar. O que vai acontecer? Será que aquele personagem realmente será capaz de cometer aquilo que anuncia? É essa expectativa, essa suspensão, que alimenta o suspense.
A noite, a composição física e vocal dos atores e essa relação direta com o pensamento dos personagens são elementos que dão unidade ao espetáculo. São três histórias diferentes, mas que parecem pertencer ao mesmo universo. É um trabalho econômico nos meios e muito rico em expressividade, na atuação e na interpretação. A unidade nasce justamente dessa combinação: a força do trabalho dos atores, a atmosfera construída pela direção e a possibilidade de o público entrar em contato com as regiões mais obscuras da experiência humana. O espectador não está apenas assistindo a três histórias de terror. Está acompanhando três consciências humanas tentando justificar suas próprias monstruosidades.
Canal Tadeu Ramos: A montagem parte do imaginário clássico do terror para investigar medos, desejos, obsessões e conflitos humanos. Até que ponto o terror literário serve como metáfora para os monstros cotidianos que habitam a mente humana na visão da direção?
Marco Antônio Barreto: Quando entramos na sala de ensaio, nossa intenção inicial era até criar um espetáculo mais fantasmagórico, sobrenatural. Mas, ao longo das improvisações e, principalmente, com a escolha e o aprofundamento nos textos, algo foi se revelando diante de nós: a beleza, a transcendência, os desejos, as contradições e os sentimentos mais sombrios fazem parte da própria natureza humana. Esse universo inteiro existe dentro de nós. Acho que o verdadeiro horror do espetáculo está justamente nisso: perceber que, dependendo das circunstâncias, somos capazes de cometer tanto os atos mais terríveis quanto os mais sublimes.
Todos nós, em algum momento da vida, temos pensamentos ruins, impulsos, sentimentos contraditórios. A diferença é que algumas pessoas transformam esses pensamentos em ações. Os personagens do espetáculo percorrem justamente esse caminho: suas obsessões crescem, ganham força e chegam ao ponto de serem executadas.
Acredito que dentro de cada ser humano existe um universo de possibilidades, tanto para o bem quanto para o mal. E talvez seja isso que torne essas histórias tão perturbadoras: não estamos diante de monstros sobrenaturais, mas de seres humanos. Gosto muito de uma imagem que traduz essa ideia: uma faca pode ser usada para passar manteiga no pão ou para ferir uma pessoa. O objeto é o mesmo. O que muda é a intenção e a escolha de quem o utiliza. No fim, talvez o terror mais profundo não esteja naquilo que desconhecemos, mas naquilo que somos capazes de reconhecer em nós mesmos.
Foto: Arquivo Pessoal
Canal Tadeu Ramos: Quais foram os principais desafios de conciliar a direção artística com a atuação em um espetáculo de forte carga dramática e suspense?
Marco Antônio Barreto: Acho que uma das coisas mais interessantes desse processo foi justamente a maneira como Graciane conduziu os atores. Ela tem um olhar muito amoroso e cuidadoso com os intérpretes. Apesar de ser uma diretora exigente, sempre tivemos um ambiente muito prazeroso de criação. Era uma alegria estar na sala de ensaio, experimentar e descobrir coisas juntos. Além de atuar, também fui responsável pelo treinamento físico dos atores. Compartilhei com meus colegas os Exercícios Plásticos, de Jerzy Grotowski, que fazem parte da minha trajetória de formação e que aprendi por meio de um dos seus alunos.
A condução da Graciane partia de uma investigação muito concreta: o que o personagem faz, como faz e por que faz. Ela analisava as circunstâncias dos acontecimentos, identificava os verbos de ação e os objetivos que poderiam orientar o trabalho dos atores. Em vez de tentar representar psicologicamente uma pessoa perturbada, por exemplo, trabalhávamos com ações físicas concretas, objetivos e justificativas. A dimensão psicológica do personagem surgia como consequência da ação. Esse é um dos princípios fundamentais do Método das Ações Físicas: colocar o corpo em determinadas circunstâncias, realizar ações verdadeiras e permitir que a vida emocional e interior acompanhe esse processo.
Havia também uma característica muito bonita na maneira como Graciane conduzia os treinamentos. Muitas vezes, por meio de jogos e improvisações, os atores produziam inconscientemente materiais de grande potência dramática. Ela tinha a habilidade de reconhecer esses impulsos, quase como se pescasse aquilo que surgia espontaneamente dos atores, e transformar isso em material para a construção das cenas. Era um trabalho consciente para atingir o inconsciente dos atores.
Só depois, com a entrada dos textos e o aprofundamento das circunstâncias e das justificativas dos personagens, aquelas ações ganhavam uma dimensão psicológica mais elaborada. E existe uma questão importante sobre a intensidade desse trabalho: em nenhum momento tivemos dificuldade de nos desligar das personagens ou de carregar emocionalmente para fora da sala de ensaio aquilo que acontecia em cena. O próprio método de trabalho oferece ferramentas para que o ator construa uma relação profunda com a personagem sem se confundir com ela. Isso também é parte de uma compreensão mais ampla do sistema de Stanislavski, que muitas vezes é interpretado de maneira equivocada.
Trabalho com Graciane desde 2004. Ela é uma das fundadoras do Santa Víscera, doutora em Teatro e uma pesquisadora dedicada há muitos anos à escola russa de preparação de atores. Ao longo dessa trajetória, construímos uma relação de confiança mútua. A cada nova pesquisa, a cada conhecimento que ela traz para a sala de ensaio, existe da minha parte uma confiança muito grande na condução do processo.
Acredito que essa confiança, somada à experiência acumulada pela companhia, permite que a gente se arrisque artisticamente e se aprofunde em trabalhos bastante complexos, sem perder o prazer de criar. O ator pode construir uma relação profunda com a personagem sem se confundir com ela.
Canal Tadeu Ramos: Qual é a expectativa para essa temporada e o que o público pode esperar da experiência imersiva proposta pelo grupo?
Foto: Cristiano Pepi
Marco Antônio Barreto: Nossa expectativa é alcançar novos públicos, pessoas que talvez ainda não tenham tido contato com o trabalho do Santa Víscera e que possam se surpreender com a companhia. Ao mesmo tempo, esperamos surpreender também aqueles que já conhecem nossos outros espetáculos, apresentando uma experiência cênica diferente.
Acredito que um dos grandes impactos de Enquanto Você Dorme está na força da interpretação dos atores. É uma montagem em que a atuação ocupa o centro da experiência. Temos um trabalho muito cuidadoso de construção das personagens, de composição física e vocal e de aprofundamento das circunstâncias de cada história. São personagens muito particulares, e acho que o público vai se surpreender com a potência dessas interpretações.
Também acredito que existe algo instigante na relação que o espetáculo estabelece com o espectador: você acaba de mãos dadas com personagens moralmente duvidosos. Acompanha seus pensamentos, entende suas justificativas e, mesmo sem concordar com suas atitudes, permanece ao lado deles durante suas trajetórias. É uma experiência que pode provocar bastante inquietação.
Mas existe uma dimensão do teatro que é ainda mais importante para nós. O Santa Víscera acredita profundamente nessa experiência compartilhada que acontece durante uma apresentação. São pessoas diferentes reunidas em um mesmo espaço, durante uma mesma noite, respirando juntas, experimentando os mesmos medos, compartilhando emoções e construindo uma experiência que só existe naquele momento.
Gosto de pensar que o teatro nos mostra que o mundo pode funcionar em equilíbrio, pelo menos durante aquela hora em que estamos juntos. Pessoas diferentes conseguem compartilhar o mesmo espaço, respeitar umas às outras e viver uma experiência comum. Esse é um dos motivos pelos quais fazemos teatro. Buscamos aquilo que chamamos de transcendência cênica: uma experiência em que atores e espectadores, juntos, consigam ultrapassar por alguns instantes os limites da realidade cotidiana.
No fundo, nosso desejo é que o público não saia apenas tendo assistido a três histórias de terror, mas que leve consigo alguma experiência humana que continue reverberando depois que as luzes se apagarem.
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