Em entrevista, o diretor e ator detalha o processo de criação de "Arlequim, Servidor de Dois Patrões", montagem comemorativa em cartaz no Sesc Bom Retiro
Foto: Priscila Prade
O grupo teatral Parlapatões celebra 35 anos de história — acumulando 71 espetáculos produzidos e 20 anos do Espaço Parlapatões — com a montagem de "Arlequim, Servidor de Dois Patrões", clássico de Carlo Goldoni. A produção, que também integra as comemorações dos 80 anos do Sesc, utiliza a tradição da Commedia dell’Arte para propor reflexões sobre temas sociais contemporâneos.
Em entrevista concedida ao Canal Tadeu Ramos, o diretor e ator Hugo Possolo explica a escolha da obra, a linguagem estética adotada e os bastidores do espetáculo, que segue em temporada na unidade do Sesc Bom Retiro, em São Paulo.
Canal Tadeu Ramos: O grupo Parlapatões completa 35 anos de trajetória acumulando 71 espetáculos produzidos, além de comemorar 20 anos do Espaço Parlapatões. Por que a escolha da adaptação de "Arlequim, Servidor de Dois Patrões", de Carlo Goldoni, foi definida como a montagem ideal para sintetizar a linguagem do grupo e celebrar os 35 anos de trajetória do grupo Parlapatões ao lado dos 80 anos do Sesc?
Hugo Possolo: Embora “Arlequim, Servidor de Dois Patrões”, de Carlo Goldoni, seja um texto da Commedia dell’Arte, ele traz todo o espírito brincalhão que os Parlapatões sempre tiveram. E, além de tudo, tem uma temática que abre as portas para a gente fazer humor pensando politicamente as situações. Claro que não é uma coisa que o público não conheça, não é nenhuma novidade e, por isso mesmo, é interessante, porque sem dúvida a gente consegue surpreender com aquilo que as pessoas acham que já está estabelecido, tanto em relação ao tipo de humor que a gente trabalha na palhaçaria, quanto em relação à temática da fome que está no texto do Goldoni.
Foto: Priscila Prade
Canal Tadeu Ramos: Você destacou que a peça resgata o tema da fome e da sobrevivência por meio da esperteza do Arlequim, estabelecendo um paralelo direto com a realidade brasileira e com a "jornada dupla" de trabalho. Como a encenação constrói esse olhar crítico e político sobre as desigualdades sociais mantendo o riso e a celebração festiva em primeiro plano?
Hugo Possolo: A desigualdade social é sempre uma temática em quase todas as nossas peças, de um jeito ou de outro, porque é o que nos incomoda, o que nos inquieta. E estabelecer uma visão crítica sobre isso não significa que a gente deixe de lado o humor, ao contrário, a gente faz o humor exatamente criticando aqueles que oprimem e não os oprimidos, o que cria uma inversão aí do que muitas vezes certos comediantes querem defender, de que era só uma piada, de que o humor pode ter limite. Não, se você souber o lado em que você está da história, você consegue apontar o humor para aqueles que provocam essa desigualdade social. Então a gente não está rindo da desigualdade, mas o que provoca a desigualdade social, e isso cria uma identidade forte, especialmente no tipo de teatro que a gente faz, que é de uma linguagem muito popular.
A partir da palhaçaria e desses clássicos revisitados, a gente consegue trazer temáticas que são importantes na história da humanidade há milênios e, ao mesmo tempo, não tiveram uma solução ainda. A gente ainda não construiu uma ideia de civilidade absoluta, mas ela vai se construindo exatamente a partir dessas críticas e desse olhar. A gente tem muita esperança que a sociedade sempre se transforme. A arte vai modificando as coisas, mas é sempre paulatinamente, provocando o pensamento de quem assiste para novas reflexões.
Canal Tadeu Ramos: A montagem abre mão de elementos tradicionais da Commedia dell'Arte formal, trocando as máscaras por maquiagens e as rendas pelo fuxico, além de incorporar acrobacias, circo e trilha original de Alexandre Dalóia. Como se deu esse processo de adaptação antropofágica para aproximar a estética italiana do imaginário e da cultura popular brasileira?
Foto: Francio Holanda
Hugo Possolo: No imaginário da cultura popular brasileira, de uma maneira ou de outra, já foi antropofagizada toda a experiência europeia dos clássicos. Tudo que acontece na nossa cultura popular, onde a gente tem, por exemplo, a palhaçaria nordestina que tem Mateus e Catirina, que são derivados de arquétipos europeus, mas que se cruzam com outras culturas, especialmente as de matriz africana, e elas se misturam e ganham outras qualidades. O que a gente fez, além de ter esse trânsito de uma cultura popular brasileira muito presente, foi trazer também a contemporaneidade. E isso não abandona esse mesmo cruzamento, por exemplo, na música, em que a composição do maestro Alexandre Dalóia, que vai visitar o lundu, o maxixe, colocar a gente para tocar esses ritmos dentro dessa maneira bem brasileira.
Por outro lado, a gente também está citando coisas contemporâneas como o funk, por exemplo, como o beatbox e o rap. Então, essas coisas se cruzam, e é nesse sentido que a gente trabalha, tanto musicalmente, que é o exemplo, como também a ideia cênica toda, seja ela no seu visual, na sua cenografia, no seu figurino, que traz elementos contemporâneos, traz elementos da cultura popular e bem brasileiros. E a própria maneira como a gente aborda o texto, e aí esse texto foi sendo adaptado e moldado a partir da criação de cada um, cada uma das artistas presentes na cena.
Canal Tadeu Ramos: Além de assinar a direção do espetáculo, você interpreta o próprio Arlequim, papel que exige intenso preparo físico e agilidade cômica. Como tem sido o desafio de equilibrar o olhar externo da encenação com as demandas corporais e o ritmo do personagem no palco?
Hugo Possolo: Apesar de ser a continuidade de um trabalho dentro dos Parlapatões, de estar atuando e dirigindo e, muitas vezes, atuando em personagens que exigem muito, como foi o caso do Abelardo no “Rei da Vela” ou do Sr. Jordana Burguês Fidalgo, que são personagens centrais e ao mesmo tempo está atuando e dirigindo, isso realmente é um exercício difícil, mas muito desafiante, muito prazeroso, porque você estabelece mais de um olhar sobre a cena. Mas isso é possível quando você tem uma equipe em cena de artistas, de atores, atrizes, que jogam com isso, que sabem lidar com isso, e sobretudo quando você tem pessoas que estão fora da cena, que dialogam bem com isso, especificamente nessa montagem do Arlequim, eu tive a parceria de um assistente de direção brilhante, que é o Dan Nakagawa, que realmente foi um grande parceiro na direção.
Porque eu podia me aliviar de algumas preocupações, digamos mais práticas e técnicas, e deixar só a preocupação artística do diretor fluir, enquanto eu tenho a preocupação artística de ator em atuar. Então, isso facilita muito quando a pessoa consegue entender sua linguagem, joga junto com você. Só é possível quando você tem também um grupo que segue, tem um trabalho continuado, uma mesma pesquisa de muito tempo, e essa pesquisa acaba resultando em facilidades de comunicação interna que agilizam a encenação. É como um jogo qualquer que você joga muito tempo com as mesmas pessoas e, a partir daí, o domínio do jogo fica diferente de você partir do zero. Então, isso é o que facilita muito esse trabalho de, ao mesmo tempo, atuar e, ao mesmo tempo, dirigir.
Canal Tadeu Ramos: Como a dramaturgia do Parlapatões foi estruturada para garantir espaço ao jogo de cena espontâneo e à interação direta com o público durante a temporada no Sesc Bom Retiro?
Hugo Possolo: A cada espetáculo dos Parlapatões, a gente experimenta um caminho de estruturação da dramaturgia diferente. Alguns textos clássicos foram adaptados, alguns textos novos foram escritos especificamente para aquelas atrizes e atores, outros textos eram apenas roteiros que foram improvisados e viraram textos com diálogos e narrações. Enfim, a cada um deles a gente constrói de uma maneira diferente. Especificamente no Arlequim, o que a gente fez foi partir do texto original numa tradução bastante antiga e que daria uma montagem de três horas e a gente foi buscando a síntese de cada cena, através de alguns improvisos e através da leitura desse texto, releitura, entendimento, muitas vezes numa cena de dupla, de trio, porque tem bastante nessa montagem.
Foto: Arquivo
Atrizes e atores se reuniam, faziam um ensaio, quase que paralelo ao ensaio das outras cenas, para criar algo novo, mostrar, a gente visualizar, entender onde sintetizar. E, a partir daí, desse caldo todo, é que foi sendo feita a escrita do texto, sempre com janelas específicas de improvisação, porque isso é típico da palhaçaria e da Commedia dell’Arte, onde elas se coincidem, porque elas têm origem parecida, embora uma não se sobreponha à outra. Então, existem esses espaços de jogo de improviso que já estão armados. Quando o texto é escrito, isso não aparece muito, mas na hora que você está ensaiando, você combina isso, chamadas peças de combinação, que são muito presentes no Circo Teatro Brasileiro. E a gente abre janelinhas para isso acontecer. E isso permite esse espírito popular que essa encenação está tendo e está conseguindo ter êxito nessa temporada no Sesc Bom Retiro.
Canal Tadeu Ramos: O espetáculo reúne nomes históricos do grupo, como Alexandre Bamba, Camila Turim, Henrique Stroeter e Tadeu Pinheiro, além dos convidados Rachel Ripani, Jéssica Turbiani e Robert Gomez. De que forma a dinâmica entre os integrantes veteranos e os novos atores fortaleceu a criação coletiva do espetáculo?
Hugo Possolo: Tem algo que eu digo ao final do espetáculo, todas as noites, e que faz muito sentido para nós todos do grupo, que a gente está comemorando 35 anos, claro que olhando para trás e valorizando o nosso passado, vivendo intensamente o nosso presente, porque é uma realização muito plena, muito divertida e que diz muito do que a gente gostaria de dizer ao mundo de hoje com essa encenação do Arlequim. Mas, sobretudo, ela é uma encenação que olha para o futuro do grupo. Já, há muito tempo, a gente vem aproximando outras gerações de artistas, até porque temos experiência na formação, como estar atuando dentro da SP Escola de Teatro, hoje um curso superior de Teatro, onde a gente aproxima artistas jovens que podem estar na cena com a gente, onde esse diálogo é de aprendizado mútuo.
Então, a gente aprende questões contemporâneas que talvez, se a gente se afastasse, a gente envelheceria como artista, como cidadão, como cidadã. Então é importante a gente estar atento ao que as novas gerações estão propondo, querendo, para aprender com elas. Então essa troca é fundamental para que o espetáculo tenha vida, tenha conexão e identidade com o público. Eu acho que essa é a principal questão que nos coloca a buscar uma renovação, não só a continuidade do grupo, continuar por continuar, mas sobretudo continuar com um sentido que seja profundo, que tenha a ver com aquilo que a gente faz para o público, porque o nosso trabalho é para o público e isso é o que é mais importante para a gente no momento, criar esse diálogo com o público, fazer e gerar reflexões de maneira poética e, sobretudo, engraçada que é o nosso ofício.
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