Montagem "Quase uma Estória - Água Parada que Sumiu no Buraco" revisita a formação do país dando voz a perspectivas indígenas e femininas na zona norte paulistana.
Foto: Ronald Gutierrez
A presença de artistas indígenas no processo de pesquisa e criação dramatúrgica amplia a discussão proposta pelos diretores Fabricio Pietro e André Garolli sobre o conflito de narrativas e a forma como a realidade é enxergada. Ao completar 35 anos de atuação contínua no teatro paulistano e com reconhecimento reafirmado na conquista de prêmios como APCA, Shell, APETESP, Mambembe, entre outros, a Cia Triptal estreia “Quase uma Estória - Água Parada que Sumiu no Buraco”, protagonizada por Fabrício Pietro, Maiara Astarte e Victor Barros no Teatro Alfredo Mesquita.
Em Quase Uma Estória, a proposta é revelar as lacunas escondidas na narrativa colonial e trazer à cena a perspectiva contemporânea sobre a “história oficial”, uma contestação feita na peça por vozes indígenas e femininas. Trata-se de um diálogo com a obra O Sumidouro, porém invertendo a lógica histórica e documental proposta por Jorge Andrade (1922-1984), abrindo nossa escuta para os saberes e memórias ancestrais que sobreviveram aos séculos de apagamento e violência, por meio da cultura da oralidade, diz o diretor e encenador Fabrício Pietro, que também atua na peça.
Dramaturgicamente, essa investigação se constrói a partir do confronto entre três personagens e três lugares distintos diante da História. Vicente (Fabricio Pietro), dramaturgo que pretende revisitar a trajetória dos bandeirantes e revelar as contradições de Fernão Dias, acredita estar questionando a narrativa oficial, mas gradualmente se vê implicado na mesma lógica de poder que procura denunciar. José Dias (Victor Barros), personagem histórico atravessado pelo conflito entre sua origem indígena e o universo dos bandeirantes, vive no próprio corpo a disputa entre pertencimento, identidade e violência colonial. Já Martha (Maiara Astarte), inicialmente apresentada como funcionária da casa de Vicente e leitora silenciosa de seu manuscrito, passa progressivamente de observadora a interlocutora crítica, recusando o lugar que lhe foi atribuído e reivindicando o direito de narrar a própria experiência.
Foto: Ronald Gutierrez
A narrativa passa, assim, a disputa entre representação e experiência ao confronto com as vozes indígenas, ampliando-se posteriormente para as mulheres, os corpos, os afetos e os desejos. É nesse deslocamento que a questão política se transforma em ação dramática: enquanto Vicente perde progressivamente o controle sobre a história que pretendia contar, José Dias e Martha deslocam o centro da narrativa, fazendo emergir outras formas de olhar, lembrar e produzir conhecimento.
A peça revela que a disputa pela narrativa permanece organizando o Brasil contemporâneo e afirma que imaginar outros futuros exige transformar não apenas quem conta a História, mas também os modos de conhecê-la, lembrá-la e transmiti-la. A equipe partiu, então, da pergunta fundamental: quem tem o direito de falar quando se fala sobre a formação da identidade brasileira? E propôs uma nova inflexão: substituir a ideia de uma coletividade representada por um coro homogêneo pela construção de uma cena capaz de integrar atores, artistas e sujeitos de diferentes origens, experiências e pertencimentos.
E a busca em todo o processo foi a de criar condições para que múltiplas vozes ocupassem o espaço da cena a partir de seus próprios saberes, experiências, corpos, memórias e perspectivas passando a trabalhar com a partir de diferentes territórios.
Foto: Ronald Gutierrez
Ficha Técnica:
Direção: Fabrício Pietro e André Garolli
Encenação: Fabrício Pietro
Elaboração dramatúrgica: Fabrício Pietro
Colaboração Dramatúrgica: Luís Holiver
Colaboradores de texto: Victor Barros, Fabrício Pietro, Maiara Astarte, Thiery Maciel, Vicka Tupi, Gabriela Eugênio, Gabriela Woods.
Elenco: Fabrício Pietro, Maiara Astarte, Victor Barros, Thiery Maciel, Alexandre Adas, Bruno Macedo, Dai Oliveira, Edu Rosa, Lilian Menezes, Nay Fernandes, Paulo Camilo e Kelly Andrade.
Elenco/pesquisadores: Bruno Salatinos, Édson Duavy, Fernando Pernambuco, Gabriela Woods, Gabriela Eugênio, Lenise Oliveira, Luis Holiver, Nelson Fioque, Pax Bittar e Victor Barros.
Aprendizes: Beatriz Rosa, Clara Pozzuto, Chloé Benoit e Kelly Andrade
Trilha sonora: Pax Bittar
Cenógrafo: Diego Dac
Adereços: Diego Dac e Luana Miyamoto - Xapiri Ateliê
Iluminação: Fran Barros
Direção de Imagem e Videomapping: André Grynwask e Pri Argoud (Um Cafofo)
Figurino: Juliana Bertolini
Preparação Corporal: Anderson Gouvêa
Preparação Teatro do Oprimido: Sérgio Audi
Preparador e Consultor de Culturas Indígenas: Thiery Maciel
Palestrantes: Davi Rodriguez Ruivo, Leandro Karaí Mirim, Lenise Oliveira, Paulo Schiller e Judson Forlan Cabral
Orientadores de Cultura Históricas: Ricardo Luiz de Souza, Marcos Francisco Napolitano de Eugenio e Danilo José Zioni Ferretti
Assessoria de Imprensa: Adriana Monteiro - Ofício das Letras
Assessoria de mídias sociais e tráfego pago: Onze06 Assessoria Marketing
Designer gráfico: Lucas Sancho
Direção de produção: André Garolli
Coordenação de produção: Fabrício Pietro
Produção executiva: Jessica Rodrigues e Carolina Henriques - Rodri Produções
Assistência de produção: Gabriela Woods
Realização: Cia. Triptal - 35 anos
Agradecimentos: Mônica Granndo, Julia Baltazar, Rebecca Leitão, Rebecca Câmara, Bertha Miranda, Lilian Menezes, Sérgio Audi, Taís Freitas, Samir Mustapha, Núcleo de Atores do Kuadrilha Teatral, Escola de Teatro Nilton Travesso, Adriana Zenezi, Docentes e discentes do projeto AEL.
QUASE UMA ESTÓRIA: ÁGUA PARADA QUE SUMIU NO BURACO
Foto: Ronald Gutierrez
Temporada: 08 de outubro a 01 de novembro
Horário: Quinta a sábado às 20h | Domingo às 19h
Local: Avenida Santos Dumont, 1770, Santana
Ingressos: Gratuito | Distribuição 01 hora antes das apresentações
Sessões Extras: Dias 28 e 29 de outubro | Quarta, às 20h | Quinta às 14:30
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