Dramaturgia, construída a partir de monólogos, traz à cena personagens que habitam esse mundo hiperconectado e, ao mesmo tempo, profundamente solitário.
Foto: Bruno Favaro
Vivemos conectados o tempo todo, mas cada vez mais sozinhos. Entre áudios de WhatsApp que decretam o fim do mundo, testes de elenco que nunca se concretizam, amores terceirizados por algoritmos, fé transformada em espetáculo e opiniões jogadas como verdades absolutas, a humanidade parece viver em permanente estado de emergência.
A peça Nuvem é um mosaico de monólogos ácidos, cômicos e dolorosamente humanos, que expõem personagens à beira do colapso: um ator que sabe tudo, critica todos e nunca termina nada; pessoas que buscam afeto em robôs para não enfrentar a complexidade do outro; crenças rasas disfarçadas de salvação; relações mediadas por telas, filtros e discursos prontos. Todos falam demais, escutam pouco e acreditam, com convicção assustadora, que estão certos.
Com uma ironia que beira o trágico, o espetáculo provoca o riso, o incômodo e o reconhecimento. O público não assiste de fora: é constantemente convocado, questionado e refletido em cena, como parte desse mesmo sistema que critica, julga e compartilha antes de pensar.
Foto: Bruno Favaro
No fim, resta uma pergunta que ecoa entre gargalhadas e silêncios: Quem ainda está disposto a amar quando ninguém aguenta mais ser humano? Mais do que um novo trabalho, Nuvem representa uma continuidade e, ao mesmo tempo, uma atualização do olhar da companhia sobre o mundo contemporâneo. Se antes a Encena investigava o homem em suas relações históricas e sociais, agora volta-se também para as relações mediadas pela tecnologia, pela virtualidade e pela velocidade das informações.
"Nuvem" emerge como uma metáfora do nosso tempo: um espaço onde tudo está armazenado, compartilhado, exposto — mas também disperso, instável e em constante transformação. Assim como a própria “nuvem” digital, o espetáculo reúne fragmentos de histórias, vozes e experiências que revelam a complexidade das relações humanas na contemporaneidade.
A dramaturgia, construída a partir de monólogos, escritos por Walter Lins e Flávia D´Álima, traz à cena personagens que habitam esse mundo hiperconectado e, ao mesmo tempo, profundamente solitário. São figuras que transitam entre o real e o virtual, entre o desejo de pertencimento e o colapso emocional, entre o excesso de informação e a falta de escuta. Nesse sentido, Nuvem dialoga diretamente com a missão histórica da Encena: provocar reflexão, estimular a criticidade e criar espaços de fruição e identificação para o público. A diferença é que, agora, o campo de batalha também é digital.
Ao levar para o palco temas como relações mediadas por tecnologia, fé contemporânea, solidão, afetividade e colapso das conexões humanas, a Encena reafirma sua capacidade de se reinventar sem perder sua essência.
Ficha TécnicaTextos: Walter Lins e Flávia D´Álima
Direção: Walter Lins
Elenco: Flavia D´Álima, Thânia Rocha, Daniella Murias, Zulhie Vieira, Raul de Andrade
Iluminação e Operação de Luz: Bruno Fávaro
Música e Operação de Som: Gustavo Barcamor
Cenários e Figurinos: Criação Coletiva
Assessoria de Imprensa: Cristiane Fernandes
Produção: Encena Cia de Teatro e ACSE – Assoc.Cultural e Social Encena
NUVEM
Foto: Bruno Favaro
Temporada: 05 de setembro a 07 de novembro
Horário: sábados às 20h30
Local: Rua Sargento Estanislau Custódio, 130 - Jd. Jussara | Vila Sônia-Butantã
Ingressos: Gratuito | Reserve
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Duração: 70 minutos
Classificação: 14 anos
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