Em entrevista, Pedro Casali revela os bastidores do solo que transforma o luto em humor, memória e afeto
Espetáculo "Solo Ideal: Arenoso" mistura comédia , teatro e música para aborta o tabu do luto
Foto: Divulgação
Canal Tadeu Ramos - O espetáculo nasce de um momento muito íntimo e poderoso: ver a sua mãe rir novamente após a perda do seu pai. Como foi o exato momento em que você percebeu que o humor poderia ser uma ferramenta de cura não só para o público, mas dentro da sua própria casa?
Pedro Casali - Ironicamente, a comédia na minha vida nasceu após uma tragédia. Meu pai tinha acabado de falecer, minha mãe ainda estava completamente mergulhada no luto, e um dia eu fiz uma brincadeira qualquer. Ela riu. Mas não foi uma risada educada. Foi aquela risada espontânea, que faz a pessoa esquecer por alguns segundos o peso que está carregando. Naquele instante eu entendi que o humor não apaga a dor. Ele não faz a saudade desaparecer. Mas ele cria pequenas pausas para que a gente consiga respirar. E eu comecei a fazer isso cada vez mais. Contar histórias do meu pai, lembrar das maluquices dele, inventar piadas... Era uma forma de dizer para a minha mãe que a gente ainda podia construir novas memórias sem deixar de amar quem tinha partido. Foi aí que nasceu o espetáculo. Antes de pensar no público, eu percebi que aquilo já estava transformando a minha própria casa.
Canal Tadeu Ramos - A gente está acostumado a ver o stand-up muito focado na punchline rápida, mas você traz uma proposta de 'comédia dramática', flertando com o teatro, a música e a dramaturgia. Como foi o processo de costurar essas diferentes linguagens para garantir que a plateia do "Solo Ideal: Arenoso" pudesse chorar e rir na mesma intensidade, sem perder o ritmo?
Pedro Casali - Acho que a resposta está justamente na minha trajetória. Antes de fazer stand-up, eu já era ator de teatro. Sempre gostei de dramaturgia, de contar histórias e, embora não seja cantor, a música sempre fez parte da minha vida. Então esse espetáculo acabou sendo o lugar onde todas essas linguagens finalmente se encontraram. Eu nunca quis fazer uma palestra sobre o luto, nem um stand-up tradicional. Queria que o público tivesse a sensação de estar ouvindo alguém contar uma grande história. Uma história que, em alguns momentos, faz rir muito e, em outros, emociona profundamente. E uma emoção acaba potencializando a outra.
O grande desafio foi encontrar esse equilíbrio. Quando a plateia está muito emocionada, você precisa saber exatamente quando aliviar. E, quando ela está gargalhando, também precisa entender a hora de deixar o silêncio entrar e permitir que a emoção apareça. Às vezes me sinto como um maestro regendo uma orquestra. Cada pausa, cada olhar, cada mudança de ritmo e cada piada têm uma intenção muito precisa. Mas o bonito do teatro é que a arte sempre é maior do que o planejamento. Por mais que eu conheça o espetáculo e imagine como o público vai reagir, cada sessão me surpreende de um jeito diferente. Tem risadas que surgem onde eu não esperava, silêncios que duram mais do que imaginei, pessoas que choram em momentos completamente diferentes. E, para mim, isso não é um erro. É justamente o que torna cada apresentação única.
E, sinceramente, não acho que esse espetáculo esteja pronto. Acho que ele nunca vai estar. Passei muito tempo lapidando cada detalhe nos ensaios e, principalmente, diante do público. Cada sessão me ensina onde a história precisa respirar, onde ela pede mais humor e, principalmente, onde o silêncio fala mais alto do que qualquer piada. Acho que é essa escuta constante que mantém o espetáculo vivo.
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Canal Tadeu Ramos - O luto ainda é um tabu enorme. No espetáculo, você fala sobre temas muito delicados, como a culpa que as pessoas sentem ao voltar a sorrir e o desafio de viúvos e viúvas encontrarem um novo amor. Houve algum receio da sua parte na hora de escrever sobre isso?
Pedro Casali - Muito. Porque eu não queria que parecesse uma provocação gratuita. Esses temas nasceram da minha própria experiência. Eu vi a culpa aparecer quando minha mãe voltou a rir. Vi o medo do julgamento quando ela começou a reconstruir a vida. E percebi que isso acontece com muita gente, mas quase ninguém fala sobre o assunto. O humor do espetáculo sempre aponta para o absurdo das situações, para as nossas contradições, nunca para diminuir a dor de alguém.
Curiosamente, depois das apresentações, muita gente me procura justamente para falar dessas partes. Viúvos, filhos, mães, pessoas que perderam alguém... Eles dizem: "Era exatamente isso que eu sentia e nunca consegui colocar em palavras." Acho que esse é o momento em que percebo que valeu a pena tocar nesse assunto tão delicado.
Canal Tadeu Ramos - Você traz muitas memórias específicas da sua infância em Ilhabela e até do velório do seu pai. Rir da morte de quem a gente ama parece impensável, mas você prova o contrário. O que faz com que uma história tão sua, tão íntima, consiga bater no peito do público e se tornar algo tão universal?
Pedro Casali - Eu acredito que quanto mais específica é uma história, mais verdadeira ela fica. E a verdade costuma ser universal. Meu pai era argentino, tinha um jeito muito particular de enxergar a vida. Minha infância foi em Ilhabela. São detalhes muito pessoais. Mas, no fundo, o espetáculo não fala sobre o meu pai. Fala sobre o pai de todo mundo. Sobre a mãe de todo mundo. Sobre aquela pessoa que cada um já perdeu ou um dia vai perder.
As pessoas não saem do teatro lembrando da minha história. Elas saem lembrando das histórias delas. De um avô, de uma mãe, de um amigo, de alguém que fazia uma piada parecida. Acho que esse é o poder do teatro. A história é minha, mas a emoção pertence a quem está sentado na plateia.
Canal Tadeu Ramos - Com 15 anos de carreira, TV, cinema e cinco livros publicados, esse projeto parece ser um divisor de águas pela carga de verdade que ele carrega. Depois de transformar uma das maiores dores da sua vida na sua obra mais consagrada, como o Pedro Casali, como artista e ser humano, sai desse processo? O que vem pela frente?
Pedro Casali - Passei muitos anos tentando entender do quê as pessoas riem. Hoje continuo mina pesquisa, mas entendi que o riso pode fazer muito mais do que divertir. Ele pode acolher, aproximar e até ajudar alguém a atravessar um momento difícil. Esse espetáculo me ensinou que vulnerabilidade também é uma forma de humor. E talvez seja a mais potente delas.
Como artista, acho que encontrei uma voz que eu ainda não conhecia. E, como filho, sinto que consegui transformar a ausência do meu pai em presença. Enquanto essa história continua sendo contada, de alguma forma ele continua vivo. Agora o próximo passo é levar essa história ainda mais longe. A gravação do especial é parte disso. Quero que pessoas que nunca poderão assistir ao espetáculo ao vivo também possam viver essa experiência. E claro, minha mãe pediu um solo pra ela, já comecei a rabiscar e estruturar, o nome já tenho: Sed libera nos a malo!
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Canal Tadeu Ramos - Agora o espetáculo ganha um novo marco com a gravação do especial audiovisual, coroando uma temporada de sessões esgotadas. O que o público do pode esperar de diferente ou especial nessa gravação? Tem alguma surpresa que você já pode dar um spoiler pra gente?
Pedro Casali - Desde o começo eu não queria simplesmente filmar um espetáculo. Queria criar um registro que tivesse alma própria. Estamos preparando essa gravação com muito cuidado, pensando em fotografia, direção, música, cenário e uma luz pensada pra trazer a atmosfera ... Dessa forma, Quem assistir de casa irá sentir a mesma proximidade de quem está sentado no teatro.
Também existe um peso emocional muito grande. Meu pai gravava absolutamente tudo da nossa família em VHS. Anos depois, durante a criação do espetáculo, eu digitalizei essas fitas e reencontrei imagens da minha infância que eu nem lembrava mais. De certa forma, essa gravação fecha um ciclo. Meu pai registrava a nossa história atrás da câmera. Agora sou eu quem registra essa homenagem para ele.
Sobre spoilers... posso dizer que estamos preparando alguns momentos pensados especialmente para essa gravação e que não aconteceram exatamente dessa forma nas temporadas anteriores. Quero que até quem já assistiu ao espetáculo tenha a sensação de estar vendo algo novo.
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