"As Armas Milagrosas: seis personagens à procura da existência" em curta temporada gratuita no Itaú Cultural
Uma adaptação a partir da obra Luigi Pirandello e Aimé Césaire para pensarmos o racismo estrutural e as disputas por visibilidade no Brasil contemporâneo.
Foto: Marcelle Cerutti
Reestreia em São Paulo, no Itaú Cultural, o espetáculo “As Armas Milagrosas: seis personagens à procura da existência”, uma adaptação dramatúrgica que articula o metateatro de Luigi Pirandello e a poética anticolonial de Aimé Césaire para criar uma metaficção e discutir o racismo estrutural e suas formas de representação no Brasil contemporâneo.
Durante o ensaio de uma comédia de Pirandello, um grupo de funcionários negros do teatro interrompe a cena e reivindica o direito de narrar a própria história. A partir desse gesto, o espetáculo transforma o palco em campo simbólico de disputa entre personagens/personas brancos e negros, visibilidade e apagamento, representação e existência.
Idealizado e dirigido por Anderson Negreiro e pela diretora colombiana Daniela Manrique, o projeto reúne autores de contextos distintos, mas atravessados por uma mesma questão: o direito à existência e à autoria. A ideia surgiu em 2021, quando o diretor trabalhou com o texto “E os cães se calavam”, tragédia de Aimé Césaire presente na coletânea de poemas "As Armas Milagrosas". O contato com a obra do autor martinicano, um dos fundadores do movimento da negritude, foi revisitado posteriormente, a partir da releitura do clássico “Seis Personagens à Procura de um Autor”, de Luigi Pirandello.
“Percebi que aquelas personagens que entram pela coxia em busca de um autor, reivindicando a continuidade da própria existência, poderiam ser corpos reais — personagens criados pela branquitude que, mais do que personagens ficcionais, lutam por existir e afirmar sua autoria no mundo”, afirmam os diretores.
Foto: Marcelle Cerutti
Na nova dramaturgia, o diretor substitui as seis personagens originais do texto de Pirandello por personagens presentes na obra de Césaire — o Rebelde, a Mãe e o Coro — representadas como funcionários de um teatro. Essas figuras deixam de ser personagens ficcionais e passam a ser corpos reais, racializados, que reivindicam o direito de existir e de se expressar por meio da arte.
"Pensando nisso, me veio a ideia de trabalhar com conceitos presentes no livro da Lilia Schwarcz, “Imagens da Branquitude – Presença e ausência”, em que ela analisa como as pessoas negras aparecem nas pinturas ao longo das décadas, sempre à margem, no fundo, em perspectiva e quase desaparecendo, enquanto as figuras brancas estão no centro e com muita luz. A partir disso, percebi que a própria luz poderia ser o dispositivo da encenação”, afirma Anderson Negreiro.
A partir das contribuições de Lilia, “Armas Milagrosas: seis personagens à procura da existência” estrutura-se inteiramente a partir da luz. O desenho de luz, criado por Matheus Brant, organiza o espaço em torno de um cubo central iluminado que separa o centro da margem. “A luz é a dramaturgia que revela a separação dos corpos. É por meio dela que a gente torna visível uma estrutura que normalmente não se vê — o racismo que organiza quem está no centro e quem fica à margem”, afirma Anderson Negreiro.
Foto: Marcelle Cerutti
Matheus Brant está indicado ao Prêmio Shell de Teatro, na categoria Iluminação pela luz criada para o espetáculo. No interior do cubo estão o Primeiro Ator e a Primeira Atriz, representações alegóricas da branquitude. À margem, permanecem os funcionários negros do teatro — inspirados nas personagens de Césaire — que operam o espaço e tentam atravessar a fronteira luminosa.
Sem cenário fixo, a montagem utiliza um carpete e adereços pontuais, de modo que a iluminação se torna o principal elemento visual e narrativo. A peça se constrói como um ensaio interrompido, em que as figuras negras reivindicam sua presença e impõem novas vozes à cena. O resultado é um teatro de conflito e exposição que desloca as hierarquias entre quem é visto e quem é invisibilizado.
FICHA TÉCNICA
Direção Geral, Idealização e Concepção: Anderson Negreiro | Dramaturgia: Anderson Negreiro | Tradução “As armas milagrosas” e “Os Cães se calavam”: Daniela Manrique | Direção da peça: Daniela Manrique (COLÔMBIA) e Anderson Negreiro (BRASIL) | Elenco: Sandra Corveloni, Barroso, Cainã Naira, Caio Silviano, Ciça Barros, Heitor Goldflus, Josy.Anne, Leandro Vieira, Rita Pisano, Angela Ribeiro, Anderson Negreiro | Desenho de Luz: Matheus Brant | Assistência de Iluminação: Filipe Batista | Operação de Luz: Filipe Batista e Matheus Brant | Trilha Sonora: Dani Nega | Musicista Criadora: Josy.Anne | Músicos Criadores: Barroso, Caio Silviano e Gabriel Moreira | Preparação Vocal e Arranjo de Voz: Renato Spinosa | Operação de Som e Vídeo: Tomé de Souza | Microfonistas: Camila Cruz e Adnes Souza | Videografia: Vic Von Poser | Figurino: Éder Lopes | Costureira: Nininha Lopes | Cenografia: Éder Lopes e Anderson Negreiro | Adereços de luz: Renato Banti | Máscaras: Rafael Érnica | Cenotécnico: Rodrigo Cordeiro | Assistência cenotecnia: Samuca | Aula aberta: Judson Forlan G Cabral | Fotografia: Marcelle Cerutti | Designer Gráfico: Jacob Alves | Marketing Digital: Elã Comunicação | Assessoria de Imprensa: Rafael Ferro e Pedro Madeira | Produção Executiva: Éder Lopes | Produção: Corpo Rastreado – Letícia Alves
AS ARMAS MILAGROSAS: SEIS PERSONAGENS À PROCURA DA EXISTÊNCIA
Foto: Marcelle Cerutti
Temporada: 06 à 16 de agosto
Horário: Quinta à Sábado, às 20h | Domingos às 18h
Local: Avenida Paulista, 149 - Bela Vista
Ingressos: Gratuito | Retirar 01 (uma) hora antes de cada sessão na bilheteria
Duração: 120 minutos
Classificação: 14 anos
Siga o Canal Tadeu Ramos no Instagram
Comentários
Postar um comentário