Entrevista: André Acioli e a arte da curadoria Teatral

Em conversa com Marcelo Fava, do projeto M ARTE, André Acioli, curador artístico, ator e diretor reflete sobre a sua trajetória, e fala sobre curadoria e o Teatro

André Acioli

Foto: Divulgação

André Acioli tem 9 anos quando aparece pela primeira vez num set de filmagem, num filme de Carlos Reichenbach — muito antes de pisar num teatro como espectador. Ele conta assim: “Eu, desde muito pequeno, desde criança, eu sempre tive esse desejo e esse anseio de trabalhar com artes cênicas. Dançava, fazia dublagem. Então, quando eu fiz o filme do Carlos Reichenbach, eu ainda tinha 9 anos.”

Anos depois, adolescente, ele entra num grupo de teatro amador sem nunca ter assistido a uma peça profissional. A primeira vez que isso acontece é numa excursão escolar até o Centro Cultural São Paulo, para ver “Van Gogh”, com Elias Andreato.

“Fui buscar fazer teatro amador sem nunca ter ido assistir a uma peça, e aí quando eu fui assistir a essa peça com o Elias, você vê o estado, né, porque o Elias é um estado. É como se fosse uma conexão profunda de: ‘caramba, é isso que eu quero, é isso que eu quero fazer’. Aquela coisa que, quando a gente é adolescente, todo mundo fica perguntando ‘o que você quer ser quando crescer?’. E eu tive essa certeza naquele momento.”

Aprender fazendo

Antes de virar curador, André passa por uma companhia de teatro infantil e pelo chamado teatro-empresa, intervenções cênicas pensadas para treinamento corporativo. Sobre esse período, ele diz: “O que eu trago hoje em dia da época que eu trabalhava com teatro-empresa, e o mesmo também com espetáculo infantil, é um olhar administrativo, um olhar de normas, de regras, um lugar de profissionalismo, de educação, de formação de plateia. São todos elementos que de uma certa maneira somam no lugar de curador e também gestor do equipamento cultural dos quais eu cuido.”

O convite

Visitando o Sr. Green

Visitando o Sr. Green | Foto: Nana Moraes

O encontro que muda o rumo dessa história acontece por acaso. André entra na peça “Visitando o Sr. Green” para substituir um amigo de turma, Edinho Rodrigues, na assistência de direção de palco. Quem estava no elenco na época era Cássio Scapin, não Dan Stulbach — Dan entra depois, substituindo Cássio numa temporada em Portugal.

“Ficamos muito próximos. Viemos para São Paulo, continuamos a temporada aqui, e o Dan um dia falou: ‘quando um dia eu tiver um teatro, gostaria muito que você estivesse junto comigo’. Depois de dois anos, ele falou: ‘chegou o momento. Joguei isso para o Pedro Herz, ele comprou a ideia de a gente ter um teatro ali na Livraria Cultura… topa estar junto comigo?’. Até então eu fazia teatro-empresa, tinha minha produtora para teatro de treinamentos. E falei: ‘topo’. Vai ser uma nova vivência."

Nascer com o teatro

Teatro Eva Herz

Teatro Eva Herz | Foto: Sergio Brisola

Assim nasce o Teatro Eva Herz, em 2007. Nos primeiros tempos, era Dan Stulbach quem pagava o cachê de André do próprio bolso, até a Livraria Cultura formalizar um contrato direto.

“Foi um período muito intenso. A gente estava meio que descobrindo tudo. Falava muito: ‘a gente quer daqui do Eva Herz aquilo que a gente gostaria de estar em casa assistindo, nossos amigos, nossos debates, temas pertinentes’. A gente vivia um momento onde esse teatro de pensamento estava se perdendo um pouco de espaço. Foi uma coisa de ir na contramão, onde todo mundo estava fazendo espetáculos grandiosos para dar resultado financeiro. O Eva Herz vinha nesse lugar de contramão. Foi muito rico esse início, e para mim, muito aprendizado.”

O outro lado do balcão

Ele chama esse momento de ter passado “para o outro lado do balcão” — de quem pede pauta para quem decide pauta. Mas por um bom tempo, gerir o Eva Herz era só isso: administração, repasse de bilheteria, controle de venda, impostos. Foi incomodando aos poucos.

“Como ator formado, com esse desejo de também estar criando, comecei a pensar: ‘como é que eu consigo ressignificar isso?’. Pedi para o próprio Elias Andreato se tinha como eu assistir a algum processo criativo. Foi quando ele me convidou para fazer assistência de direção de um espetáculo que estava criando. A partir daí comecei a fazer alguns projetos, cheguei a dirigir o próprio Elias. Fiz com Odilon Wagner, com o Dan Stulbach. Isso foi me trazendo outro olhar — de percepção de construção de uma curadoria. Que não é só pegar um projeto, cumprir uma temporada e ir embora. Tem um pensamento, uma construção, um desenho do que você quer falar.”

Essa percepção começa a se formar em 2010 e se consolida em 2014, quando Dan Stulbach sai da Livraria Cultura e passa o Eva Herz inteiro para André conduzir sozinho. Em 2015 ele entra no Teatro Porto. Em 2017, assume também a curadoria do Teatro Vivo.

“Tudo aconteceu muito próximo, muito intenso, tudo junto e misturado.”

Quem foi para o CCSP de excursão escolar, sem nunca ter visto uma peça, hoje decide o que vai estar em cartaz em dois teatros diferentes de São Paulo.

O que é curar

Teatro Vivo

Teatro Vivo — Foto: Ricardo Bassetti

Hoje André Acioli cura dois teatros patrocinados por empresas — o Teatro Vivo e o Teatro Porto — e ao mesmo tempo ocupa a presidência da APTI e criou, com Dani Angelotti, a MIACENA. Sobre como decide o que entra em cartaz, ele começa negando qualquer método fixo.

“Confesso que não tem uma receita de bolo para essa questão da curadoria, tanto do Porto quanto do Vivo. É muito orgânico, é muito do momento. Oportunidades, possibilidades, negociações, anseios, desejos, o que está acontecendo no planeta, como que a gente pode tratar de determinados assuntos: ‘vamos dar luz para aquilo’. Dou um exemplo: com relação à Vivo, a gente já vem pensando que 2026 vai ser um ano difícil, um ano que vai ter muito feriado prolongado, vai ter Copa, tem eleição, tem muita atividade na cidade de São Paulo. Como que eu vou programar essa curadoria, desenhar esse cronograma de peças, pra gente não ficar numa montanha-russa?”

Mesmo com planejamento, o resultado nunca é garantido. “O teatro tem essa coisa: é muito efêmero. Se você tem uma greve de trem, o público já não vai. Se você tem um jogo do Brasil importante naquela noite, você já não tem ninguém na rua. E eu não tenho o dia seguinte para poder completar o dobro da plateia que não pôde assistir aquele outro dia. Passou, foi, aconteceu, o serviço perdeu.”

MIACENA

Em 2024, André cria a MIACENA ao lado de Dani Angelotti. A ideia é comumente descrita como uma recusa ao palco italiano — ele discorda dessa leitura.

“Não é que eu tenha recusando as peças pensadas para o palco italiano. Pelo contrário. Acho que todo espetáculo, hoje em dia, já pensa que ele possa ser adaptável. Porque hoje você faz no teatro X, amanhã no teatro Y, depois você viaja. A provocação entra, na verdade, em você passar a olhar não só os palcos convencionais, mas também possa fazer uma adaptação para acontecer especificamente em determinado lugar. Eu quero que aconteça dentro daquele hall, daquele elevador. Quero que aconteça dentro de um banheiro, no estacionamento, na rua, na fachada de um prédio.”

Arte e cidade

A MIACENA ocupa hoje ruas, praças e bares no centro histórico de São Paulo. Perguntado se levar espetáculo pra rua é também uma resposta ao medo da violência na cidade, a resposta dele não cabe num sim ou não.

“Sempre achei que a arte de uma certa maneira ressignifica tudo. A arte é uma cura. Então essa provocação de você colocar um espetáculo na rua não acaba sendo uma resposta ao medo da violência, mas seja uma maneira da gente contribuir para diminuir essa violência, porque onde você leva o pensamento, você traz a coerência das coisas, você traz vida pro lugar.”

Fundo Marlene Colé

Antes da MIACENA, teve a pandemia. André integrava a diretoria da APTI — a presidência era do Gabriel Fontes Paiva, hoje presidente do conselho — quando o setor teve que se mobilizar para socorrer quem ficou sem trabalho. Nasceu daí o Fundo Marlene Colé.

“Cutuquei o Gabriel e cutuquei o Odilon Wagner: ‘e aí, gente, como que a gente faz? Vamos precisar de alguma forma passar o chapéu, porque o setor vai ficar travado, principalmente os bastidores’. O mais difícil foi a gente conseguir se comunicar com a turma. E principalmente as pessoas do circo, que muitas vezes estavam em lugares muito isolados, sem comunicação. A gente mandava às vezes a cesta básica para poder entregar no circo, e o circo já tinha sido expulso daquele terreno.”

Itaú entrou com uma verba, o Fábio Porchat destinou o prêmio que ganhou, o Prêmio Shell também foi pra causa. Mas o que marcou aquele período, pra ele, foi outra coisa. "Foi um trabalho bem árduo, mas também muito gratificante, no sentido de união mesmo. Foi aí que veio também um dos ingredientes da MIACENA: essa importância de a gente, enquanto setor, estar junto no fazer. Na saúde e na doença, na alegria e na tristeza.”

O infiltrado

André administra dois teatros de patrocinador e ao mesmo tempo representa quem não tem esse patrocínio. Perguntado se isso é contradição, ele ri antes de responder.

“Eu costumo brincar que eu sou um infiltrado nas empresas do setor cultural e um infiltrado no setor cultural das empresas. São anseios e desejos distintos, e para mim isso só me enriquece, porque tenho o olhar concreto das empresas e também a necessidade do setor. Muitas vezes o setor acha que tá entregando aquilo que a empresa quer, e não é. E a empresa acha que aquilo que o setor precisa é determinada coisa, e o setor não consegue fazer aquela entrega. Eu me sinto nesse lugar de elo. Existe da minha parte um lugar de ética: eu não faço parte de projetos que venham a precisar de patrocínio das empresas das quais eu cuido. Não existe a possibilidade de o meu nome estar envolvido em algum projeto que tenha o patrocínio dessas empresas."

As casinhas

Na última pergunta, sobre o que ninguém nunca perguntou a ele, André não escolhe uma lembrança. Escolhe explicar como o teatro funciona por dentro.

“Há uma consolidação de que tá tudo junto e misturado. E não é. É uma cadeia muito ampla. Entre o ator que faz a peça, o produtor que pensa num projeto e convida as pessoas para fazer, o teatro equipamento que recebe essas produções, o patrocinador que enxerga que aquele artista pode trazer alguma coisa interessante institucionalmente para a marca. São casinhas muito distintas umas das outras. É geração de emprego, é profissionalização, são trabalhos diretos e indiretos, construção de carreiras.”

E fecha assim: “Não é questão de gostar de cultura. A cultura é a sua vida. É que você não conseguiu enxergar. Mas ela faz parte da sua vida desde o momento que você nasceu, dos hábitos que você tem no dia a dia. Tá impregnado no nosso ser."

SOBRE ANDRÉ ACIOLI

André Acioli

Foto: Divulgação

André Acioli é ator, curador e gestor cultural. Foi curador do Teatro Eva Herz, dentro da Livraria Cultura, entre 2007 e 2023. Hoje cura o Teatro Vivo e o Teatro Porto, preside a APTI e criou, ao lado de Dani Angelotti, a MIACENA — Mostra Internacional de Artes Cênicas em Espaços Não Convencionais e Alternativos.

SOBRE MARCELO FAVA

Marcelo Fava

Foto: Gabriel Diogo

Marcelo Fava é o criador do M ARTE ( @m_arte90 ), projeto pessoal de curadoria cultural dedicado a teatro, cinema, música, exposições e literatura, sempre a partir de experiências presenciais. É também arquiteto, com atuação em visualização 3D, arquitetura de interiores, cenografia, direção de arte, fotografia e produção de vídeo. Nascido em São Borja (RS), vive em São Paulo desde 2013.

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