"Bigorna" estreia no Sesc Vila Mariana e transforma uma história familiar em reflexão sobre pertencimento

Solo mistura autobiografia, terror, humor e cultura pop para investigar como pessoas consideradas diferentes são empurradas para as margens.

Bigorna

Foto: Julio Arakack

"Bigorna" - um thriller autoficcional, solo escrito, dirigido e interpretado por Walmick de Holanda, estreia em agosto no Sesc Vila Mariana. Desenvolvido ao longo de anos de investigação artística e criação autobiográfica, o espetáculo transforma experiências pessoais em uma reflexão sobre exclusão, identidade e pertencimento. Ao reunir teatro documental, autoficção, humor, terror e referências da cultura pop, a montagem investiga como corpos considerados fora da norma são enquadrados, corrigidos ou afastados da convivência social.

Em cena, Walmick revisita e reelabora diferentes momentos da própria vida, entrelaçando lembranças da infância, adolescência e vida adulta com histórias de outros homens gays encontradas ao longo de sua pesquisa. A dramaturgia embaralha memória e invenção para construir uma narrativa em que o vivido ganha contornos ficcionais e a ficção revela verdades pessoais.

Bigorna

Foto: Julio Arakack

Uma história vivida por sua família funciona como disparador dessa reflexão. Durante aproximadamente três décadas, um tio permaneceu confinado em um quarto gradeado por apresentar uma condição nunca diagnosticada, sendo tratado como alguém incapaz de conviver socialmente. Ao aproximar essa experiência da própria trajetória, o espetáculo investiga como famílias e sociedades tentam controlar, normatizar ou corrigir aqueles que escapam dos padrões considerados aceitáveis.

Na infância, sem compreender o que acontecia, Walmick criou explicações fantásticas para aquele isolamento. Essas imagens, inspiradas pelo imaginário dos filmes de terror, tornaram-se uma das principais chaves dramatúrgicas do espetáculo e ajudam a discutir como pessoas consideradas "diferentes" muitas vezes são tratadas como figuras monstruosas ou ameaçadoras.

Humor, suspense e referências à cultura pop atravessam toda a narrativa. Xuxa, Power Rangers, Michael Jackson, Divas pop - (referência dos anos 80 e 90, filmes, animações e músicas), e o cinema de horror aparecem como parte do universo afetivo de uma criança que buscava compreender o mundo por meio da fantasia. Nesse contexto, o Terror além de um gênero cinematográfico, opera na linguagem do espetáculo a fim de discutir medo, vergonha, desejo de pertencimento e violência simbólica.

Bigorna

Foto: Julio Arakack

Além das memórias pessoais, a dramaturgia incorpora objetos, roupas e outras materialidades da infância que funcionam como documentos afetivos, ampliando a experiência autobiográfica para dialogar com histórias de outras pessoas LGBTQIAPN+ e de todos aqueles que, em algum momento da vida, sentiram que não cabiam nos lugares que lhes foram destinados.

O título também sintetiza esse percurso. A bigorna — ferramenta sobre a qual o metal é golpeado para ganhar forma — torna-se metáfora da violência sofrida, mas também da possibilidade de transformar impactos em criação. "Percebi que o medo que eu tinha de me transformar no meu tio era, na verdade, o medo de me tornar o diferente da família, alguém destinado a viver à margem", afirma Walmick.

Bigorna

Foto: Julio Arakack

Desenvolvido desde 2022, Bigorna nasceu da pesquisa de mestrado de Walmick de Holanda em Artes na Universidade Federal do Ceará (UFC), dedicada aos processos de composição dramatúrgica autoficcional. O autor também participou do Núcleo de Direção da Escola Livre de Teatro de Santo André, com supervisão do Luiz Fernando Marques Lubi, no processo de criação da peça. O espetáculo marca sua estreia profissional como dramaturgo e diretor e reúne teatro, performance, memória e imaginação em uma investigação sobre identidade, diferença e pertencimento.

Ficha Técnica:

Atuação, Direção e Dramaturgia: Walmick de Holanda
Supervisão Artística: Luiz Fernando Marques Lubi
Orientação Teórica e Provocação Artística: Francis Wilker
Desenho de Luz e operação: Felipe Tchaça
Assistente de Direção: Danilo Martim
Preparador Corporal: Hélio Toste
Figurino: Larissa Torres
Cenário: Walmick de Holanda
Técnico e Operador de som e vídeo: Danilo Martim
Equipe de Libras: Coragem Criativa - Camiss Delfino, André Bruno e Caê Coragem
Audiodescritor: Dylan Garbini
Apoio da audiodescrição: Paula Felix
Cenotécnico: Renato Simões
Costureira: Celma Mota e Silvana de Carvalho
Projeto Gráfico: Walmick de Holanda
Fotos de divulgação (para projeto gráfico): Julio Arakack
Registros fotográficos e em vídeo do espetáculo: Cacá Bernardes - Bruta Flor
Assessoria de Imprensa: Canal Aberto Comunicação
Produção: Corpo Rastreado – Gabs Ambròzia
Agradecimentos: Ailton Guedes, Alessandro Marba, Alex Calmon, Ana Célia Torres, Ana Nehan, Andrei Bessa, Binho Cidral, Bruno Frika, Camila Cohen, CAPES, Carine Cedraschi, Casa Farofa, Cia do Pássaro, Corpo Rastreado, Cristiane Paoli-Quito, Daniel Martins, Dawton Abranches, Duda Machado, Eduardo Bruno, Eduardo Fraga, Elisa Porto, Evandro Cavalcante, Fabricio Licursi, Farofa, Felipe Haiut, Felipe Sales, Festival MixBrasil, Flávia Xaxá Melman, Gabi Gonçalves, Henrique Fontes, Ícaro Machado, Jacqueline Peixoto, Jo-A-Mi, Jorge Ferreira, Julia Corrêa, Khazar Masoumi, Larissa Carneiro, Leo Bahia, Letícia Rodrigues, Lilian Regina, Lucas Amoedo, Lucas Sancho, Luiz Felipe Bianchini, Luiza Romão, Marisa Bezerra, Michele Maia, Mitchel Diniz, Núcleo de Direção da Escola Livre de Teatro de Santo André, Pedro Guimarães, PPGArtes ICA/UFC, Rafael Fialho, Raquel Parras, Raissa Starepravo, Roma Oliveira, Raoni Reis, Renato Turnes, Ricardo Tabosa, Sesc Vila Mariana, Simone Évanz, Tico Dias, Vicente Concilio, Vinicius Flauaus, Waldírio Castro, Walmick Campos, Zé Luiz. Dedicado à memória de Tio Bosco.

BIGORNA - UM TRILLER AUTOFICCIONAL

Bigorna

Foto: Julio Arakack

Temporada: 04 a 22 de agosto
Horário: Terças, Quartas e Quintas, às 20h | Sábados, às 18h
Local: Rua Pelotas, 141, Vila Mariana
Ingressos: R$50,00 (inteira) | R$25,00 (meia) | R$15,00 (credencial plena) | Comprar ingressos
Duração: 70 min
Classificação: 14 anos

Sessões Extras: Dia 14 de agosto, às 22h | Dia 21 de agosto, às 15h

Sessões com Recursos de Acessibilidade: Dias 08 e 15 de agosto

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