Espetáculo traz à cena os últimos dias de vida de José Leite de Santana, um dos principais cangaceiros do bando de Lampião.
Foto: Allan Diniz
"Jararaca", novo trabalho do Grupo Pavilhão Magnólia, com sede em Fortaleza, no Ceará, representa mais um passo em sua trajetória de 21 anos de revelar histórias e personagens que compõem a construção social e cultural do país. O espetáculo, com dramaturgia do multiartista pernambucano Giordano Castro e direção do cearense Murillo Ramos, traz à cena os últimos dias de vida de “Jararaca” (José Leite de Santana), um dos principais cangaceiros do bando de Lampião. A obra estreia e faz curta temporada no Itaú Cultural.
Na história, os quatro atores em cena acompanham os sete dias finais de Jararaca, após ser baleado, capturado, preso e morto pela polícia. Em 1927, o bando de Lampião saiu de Pernambuco, atravessou a Paraíba e tentou invadir Mossoró (RN). Após a fracassada investida, conhecida como “Chuva de Bala”, o grupo foge em direção ao Ceará. No confronto, dois cangaceiros ficam para trás: entre eles, José Leite de Santana, o Jararaca. Baleado ao tentar salvar seu companheiro Colchete, ele é capturado e permaneceu preso por sete dias, torturado, até ser assassinado em 20 de junho de 1927.
Foto: Allan Diniz
Os jogos políticos, religiosos e econômicos que atravessam esse período estruturam o espetáculo, que lança um olhar crítico sobre as violências de Estado, ontem e hoje. Para o grupo, a narrativa que reduz o cangaceiro à figura de “bandido” revela-se insuficiente diante das complexas violências sociais que atravessavam o sertão no início do século XX: a seca, a fome e a desigualdade são imposições históricas.
A obra propõe uma reflexão sobre memória e apagamento, evidenciam, assim, processos que atingem, sistematicamente, corpos pretos, marginalizados e periféricos. Nessa jornada, o espetáculo busca, de forma metafórica, resgatar esse corpo e suas narrativas, criando espaços de fabulação crítica.
“Reafirmamos a urgência de falar sobre o Nordeste: de onde viemos e quem somos”, diz o ator Nelson Albuquerque. O grupo lembra que o cangaço também carrega um imaginário meio pop, cultuado de forma meio festeira, com fantasias, um estereótipo do que é o Nordeste. Hoje, Jararaca é reverenciado como “santo popular”, não oficializado pela igreja, na cidade de Mossoró (RN). “Nos interessa ir além do arquétipo do cangaceiro e das histórias já cristalizadas e limitantes desse universo”, completa.
Foto: Allan Diniz
A transformação de um cangaceiro em santo popular instiga a criação e dialoga com o imaginário fantástico presente na literatura de cordel. “Ao mesmo tempo em que o cangaço é visto por alguns como movimento social e por outros como bandidos, ele tem um traço meio pop. Tem uma fantasia do cangaceiro, do estereótipo do Nordeste. Nós questionamos um pouco esse lugar do estereótipo”, revela.
A desproporcionalidade com que essas violências atingem corpos negros e pobres revela um padrão estrutural que não se configura como exceção, mas como regra. JARARACA propõe, assim, um olhar expandido sobre a criação contemporânea, implicando seus artistas nos temas abordados e abrindo caminhos para novas leituras, deslocamentos e redescobertas.
A obra também tensiona paralelos entre passado e presente, ao questionar as violências do Estado em seu projeto de Necropolítica. Que histórias se repetem? Quais vidas são marcadas previamente pela morte? As perguntas ecoam: quem mandou matar Jararaca? Quem mandou matar Marielle?
Com "Jararaca", o Grupo Pavilhão da Magnólia reafirma sua prática artística coletiva, baseada em pesquisa e compartilhamento de saberes. Ao longo de sua trajetória, o grupo já criou vinte espetáculos e recebeu reconhecimento nacional, incluindo o Prêmio Shell de Teatro - Destaque Nacional (2025) pelo trabalho continuado, além de participação em importantes festivais no Brasil e no exterior.
Ficha Técnica:
Concepção e Criação: Grupo Pavilhão da Magnólia
Dramaturgia: Giordano Castro
Direção: Murillo Ramos
Elenco: Silvianne Lima - Jota Junior Santos - Nelson Albuquerque - rudriquix
Criação e Operação Musical: rudriquix
Letras (Músicas Originais): Murillo Ramos
Gravação Música SETE: Venícius Gomes e Jocasta Britto
Iluminação: Wallace Rios
Cenografia: Rodrigo Frota
Figurinos: Themis Memória
Direção de Movimento: Clarissa Costa
Fotos Divulgação e Vídeos Projeção: Allan Diniz
Colaboração na Pesquisa: A Máscara de Teatro - Mossoró/RN
Coordenação de Produção: Som e Fúria
Produção Executiva: Silvianne Lima e Jota Junior Santos
Apoio: Casa Absurda
Produção/SP: Corpo Rastreado
Comunicação: Canal Aberto Comunicação
Realização: Itaú Cultural
Co-Produção: HUB Cultural Porto Dragão
JARARACA
Foto: Allan Diniz
Temporada: 28 a 31 de maio
Horário: Quinta a Sábado, às 20h | Domingo, às 18h
Local: Av. Paulista, 149 - Bela Vista
Ingressos: Gratuito | Reservas de ingressos a partir de 26 de maio (terça-feira), às 12h, na plataforma INTI – acesso pelo site do
Itaú Cultural
Duração: 90 minutos
Classificação: 16 anos
- *Essa atividade contará com acessibilidade em libras
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