Montagem aposta no humor ácido para confrontar gênero, classe e fé em um país à beira de novas rupturas.
Foto: Lígia Jardim
Em 2040, o condomínio de luxo Nova Canaã já não é apenas o endereço de uma família de classe média: tornou-se a metáfora de um país murado; conforto, discurso e medo convivem sob vigilância privada. É nesse território aparentemente protegido que Gente de Classe</>, do Grupo Carmin, com direção de Quitéria Kelly, uma das fundadoras do grupo, criado em Natal há mais de vinte anos, projeta um Brasil que parece futuro, mas fala diretamente do presente.
Inspirada nas leituras do sociólogo potiguar Jessé Souza, a dramaturgia constrói um recorte específico da classe média — urbana, escolarizada, moralmente ansiosa — que pode ser reconhecida em diferentes regiões do país. “Não é de uma ‘ficção científica’ clássica, que tenta antecipar o futuro, mas uma crítica do presente a partir da projeção desse futuro possível”, afirma Quitéria Kelly, diretora do espetáculo.
Foto: Lígia Jardim
No centro da narrativa está uma mãe solo, que cria dois filhos dentro do condomínio blindado “Nova Canaã”. Ela encarna a contradição entre autonomia e sobrecarga, discurso progressista e prática conservadora. Ao seu redor, personagens majoritariamente femininas ampliam o debate: Maria, a inteligência artificial doméstica, e uma ativista do movimento revolucionário disputam o espaço privado e o espaço público. “O protagonismo feminino é uma larga tradição na modernidade. Por que não imaginar que a próxima revolução deste século XXI comece e seja liderada por mulheres?”, provoca a diretora.
A encenação tem uma estética assumidamente artificial, limpa e controlada, que reflete um mundo em que as relações humanas passaram a funcionar como um jogo permanente de performance. O cenário, composto por elementos minimalistas e modulares, deixam uma atmosfera “clean”, asséptica e impessoal: tudo parece organizado demais, calculado demais, “como um feed de rede social cuidadosamente editado”, nas palavras da diretora.
Foto: Lígia Jardim
Com influência de beats eletrônicos, trap music e da pesquisa musical de Ian Medeiros, a trilha sonora ajuda na construção estética e crítica da obra, ao conduzir a dramaturgia com pulsações, ironias e ritmos.“Em muitos momentos, ela funciona como um mecanismo de distanciamento: interrompe a tensão dramática para permitir que o humor apareça e que a crítica social possa emergir de forma mais aguda. Essa operação cria um contraste importante entre o absurdo das situações e a leveza aparente com que elas são apresentadas, característica marcante da linguagem do Grupo Carmin”, diz.
Criada antes da pandemia, a peça foi retomada em 2024, quando o grupo percebeu que as tensões que a motivaram permaneciam ativas. “A surpresa é que, a despeito de estarmos com um governo mais democrático, os temas e as questões levantadas continuavam vivos na sociedade brasileira”, afirma Quitéria Kelly. O conteúdo político, aqui, é assumidamente mais explícito.
Ficha Técnica
Direção: Quitéria Kelly
Dramaturgia: Henrique Fontes, Pablo Capistrano e Quitéria Kelly
Elenco: Rafa Guedes, Thuyza Fagundes e Carol Cantídio / Quitéria Kelly
Direção de Movimento: Ana Cláudia Viana
Trilha Sonora: Ian Medeiros
Design de Luz: David Costa
Videomaker: Taline Freitas e Mylena Sousa
Animação: Juliano Barreto
Cenografia: Manar Zind
Figurino: Virginia Borges
Produção: Grupo Carmin e Corpo Rastreado
Assistência de Produção: Rafa Guedes e Lanuk Nagibson
Assistente de Palco: Venâncio Cruz
Comunicação Visual: Gabi Mati e (Estúdio Rima)
Sonoplasta: Ian Medeiros
Projeção Mapeada: Gabi Mati
Costureiras: Valquíria Rosa e Célia Lucena
GENTE DE CLASSE
Foto: Lígia Jardim
Temporada: 29 de maio a 28 de junho*
Horário: Quinta a Sábado, às 20h | Domingo e feriado, às 18h
Local: Av. Paulista, 119 - Bela Vista
Ingressos: R$ 60,00 (inteira) | R$ 30,00 (Meia) | R$ 18,00 (Credencial plena)
Duração: 60 minutos
Classificação: 16 anos
- Dias 10, 17 e 24 de junho (quartas), às 15h
- Não haverá sessões nos dias 13 e 19 de junho
Acessibilidade:
- Audiodescrição - 10, 17 e 24 de junho, às 15h
- Tradução e interpretação em libras - 18, 20 às 20h e 21 de junho, às 18h
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