Inédito, o trabalho transforma um cruzeiro de luxo em alegoria da formação latino-americana
Foto: Cassandra Mello
O Coletivo Estopô Balaio estreia no Sesc Belenzinho, o espetáculo "Reset América Latina", terceiro e último trabalho da Trilogia da Amnésia, iniciada com Reset Nordeste (2020) e seguida por Reset Brasil (2023).
Premiado ao Shell na categoria Inovação por “A Cidade dos Rios Invisíveis” em 2020, conhecido por suas criações em ruas, praças e trens da CPTM, o grupo da zona leste de São Paulo realiza, agora, um movimento inédito: ocupar um espaço fechado. Entre os nove espetáculos de sua trajetória, apenas um havia sido concebido para palco. A decisão marca uma inflexão estética e estratégica na história do coletivo.
“Estamos trocando de pele em todos os sentidos”, afirma a diretora e atriz Ana Carolina Marinho. “A trilogia é um mergulho para dentro. Investigamos o que esquecemos de lembrar quando inventamos identidades que nos homogeneizam. O nordestino, o brasileiro e agora o latino-americano são construções que encobrem camadas étnicas, raciais e territoriais muito mais complexas.”
Foto: Cassandra Mello
A mudança de linguagem dialoga também com o contexto das políticas culturais atuais. Diante de dificuldades crescentes de circulação e financiamento para trabalhos itinerantes, o grupo opta por experimentar um formato que dialogue com os mecanismos institucionais vigentes, sem abrir mão de sua perspectiva crítica.
Ao mesmo tempo, o coletivo prepara a inauguração de sua nova sede no Jardim Romano, também na zona leste, instalada em um antigo salão religioso que está sendo transformado em teatro. A abertura está prevista para julho, logo após o encerramento da temporada no Sesc.
Em cena, Reset América Latina se inicia dentro de um cruzeiro de luxo — metáfora do próprio teatro. Um “não-lugar” em águas internacionais, onde passageiros embarcam para viver uma experiência de consumo cultural e identitário.
O primeiro ato assume a forma de um musical: canções populares do imaginário brasileiro conduzem um espetáculo que revisita simbolicamente as grandes navegações e o projeto colonial. Aos poucos, surgem fissuras. Conflitos de classe, raça e pertencimento atravessam dois núcleos de personagens: um casal em ascensão social e um grupo de amigos que ganha uma viagem premiada.
Foto: Cassandra Mello
“O cruzeiro atravessa o Atlântico como uma espiral do tempo”, explica o dramaturgo e ator Juão Nyn. “Caravelas, navios negreiros — tudo ecoa nesse percurso. A ideia é questionar essas identidades criadas pelos invasores da terra e perguntar: o que somos antes de sermos latino-americanos?”
No segundo ato, o espetáculo desloca o olhar para os bastidores da embarcação — cozinha, limpeza e maquinário. Trabalhadores exaustos, ainda que financeiramente recompensados, confrontam a sensação de esvaziamento e saque simbólico. Uma disputa em torno de um prato — a “língua” servida aos passageiros — torna-se alegoria da violência histórica sobre território, cultura e linguagem.
Já o terceiro momento rompe com a narrativa realista e avança para uma dimensão imagética e pós-dramática. A figura da cobra — demonizada na tradição cristã e reverenciada em diversas cosmologias indígenas — torna-se eixo simbólico da transformação. Trocar de pele, aqui, é abandonar camadas coloniais para acessar outras temporalidades e cosmovisões.
FICHA TÉCNICA
DIREÇÃO GERAL: Eliana Monteiro
DIRETORA ASSISTENTE: Bárbara Freitas
IDEALIZAÇÃO E CRIAÇÃO: Coletivo Estopô Balaio
DRAMATURGIA: Lara Duarte com Colaboração do Coletivo Estopô Balaio
TEXTOS: Ana Carolina Marinho, Bárbara Freitas, Eliana Monteiro, Dandara Azevedo, Dunstin Farias, Juão Nyn, Keli Andrade, Lara Duarte, Wescritor
DIREÇÃO DE MOVIMENTOS E PREPARADOR CORPORAL: Dudu Galvão
DIREÇÃO E PRODUÇÃO MUSICAL: Dani Nega
CRIAÇÃO MUSICAL: Coletivo Estopô Balaio e Dani Nega
PRODUÇÃO MUSICAL - SHOW DE ABERTURA: Dani Nega e Pipo Pegoraro
CANÇÕES ORIGINAIS: Elenco
ARRANJOS DE VOZ: Dudu Galvão
ELENCO ESTOPÔ BALAIO: Ana Carolina Marinho, Dandara Azevedo, Dunstin Farias, Keli Andrade, Juão Nyn
ELENCO CONVIDADO: Adyel Kariú Kariri, Hayla Cavalcanti, Potira Marinho, Wescritor
DESENHO DE LUZ: Guilherme Bonfanti
OPERAÇÃO DE LUZ: Yasmin Ebere
OPERAÇÃO E DESIGN DE SOM: André Papi
VIDEOGRAFIA: Bianca Turner
OPERAÇÃO DE VÍDEO MAPPING: Julia Ro, Laura do Lago e Bianca Turner
CONCEPÇÃO DE CENOGRAFIA: Eliana Monteiro
ASSISTENTE DE CENOGRAFIA E DESENHO TÉCNICO: José Fernando Bicudo
CENOTÉCNICO: Zé Valdir
CRIAÇÃO E CONCEPÇÃO DE FIGURINOS: Mara Carvalho
CONFECÇÃO, MODELAGEM E COSTURA: Silvana Carvalho
ADEREÇOS: Rafa Giz e Zé Valdir
IDENTIDADE VISUAL: Daniel Torres
CONTRA-REGRAS: Lisa Ferreira, Muri Palma, Mauro José e Rafael Alcantara
MONTADORES: Mauro José, Rafael Alcantara
ASSESSORIA DE IMPRENSA: Márcia Marques - Canal Aberto
SECRETARIA: Lisa Ferreira
MÍDIAS SOCIAIS: Jorge Ferreira
FOTOGRAFIA E CÂMERA: Cassandra Mello
DIREÇÃO DE PRODUÇÃO: Wemerson Nunes
ASSISTENTE DE PRODUÇÃO: Muri Palma
PRODUÇÃO : WN Produções e Bela Filmes Produções
REALIZAÇÃO: Coletivo Estopô Balaio e Sesc São Paulo
ACESSIBILIDADE: LIBRAS e AUDIODESCRIÇÃO (Consulte datas)
AGRADECIMENTOS: Teatro de Contêiner Mungunzá (Cia Mungunzá), Cia Antropofágica (Teatro Pyndorama), Cia Livre (Casa Livre), Cooperativa Paulista de Teatro, Casa Faroffa, Galpão do Folias, Complexo Funarte, Teatro Flávio Império, SP Escola de Teatro, Teatro da Vertigem e aos moradores do Jardim Romano.
RESET AMÉRICA LATINA
Foto: Cassandra Mello
Temporada: 29 de maio a 05 de julho
Horário: Quintas aos Sábados, às 20h30 | Domingos, às 17h30
Local: R. Padre Adelino, 1000 - Belenzinho
Ingressos: R$60,00 (inteira) | R$30,00 (meia-entrada) | R$18,00 (Credencial Plena)
Duração: 120 min
Classificação: 12 anos
- Interpretação em Libras: Dias 06, 14, 20, 26 e 28 de junho e 05 de julho
- Audiodescrição: Dias 07, 12 e 21 de junho
- Fernando Billi
- Eric Lenate
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