Entre o riso e o soco no estômago, "Cabaré Profano" reafirma o Bar Queen como território de resistência artística.
Foto: Fillipe Miller
Por Tadeu Ramos
Popularizados em Paris no século XIX, os cabarés sempre flertaram com o teatro e a dança, entregando ao público um show de variedades que misturava entretenimento e crítica social. Com essa referência — e adicionando uma pitada generosa de vaudeville — o Coletivo Poscenio adentrou o icônico Bar Queen com sua nova montagem: "Cabaré Profano" .
O local não foi escolhido ao acaso. Inaugurado em 2001, o Bar Queen consolidou nomes que se tornaram instituições da comunidade LGBTQIAPN+, como Cicety Karoline, Victória Principal, Salete Campari e Silvetty Montilla. Em 2025, o espaço recebeu a placa do Inventário Memória Paulistana, um reconhecimento da Secretaria Municipal de Cultura à sua importância histórica. É nesse solo sagrado da noite paulistana que o espetáculo ganha vida.
Já na entrada, o público é recebido por parte do elenco devidamente caracterizado. Antes mesmo do "terceiro sinal", o espectador passa por uma experiência sensorial que prepara o espírito para o que está por vir (sem spoilers, claro). A ambientação faz com que o limite entre o palco e o bar se dissolva entre as mesas, cativando a plateia desde o primeiro contato. Quando as cortinas imaginárias se abrem, surge a dúvida: o show vai começar ou já começou?
Foto: Tadeu Ramos
Imagens pitorescas, espelhadas na realidade de diversas épocas, transportam o público não para um tempo específico, mas para dentro de nossas próprias mentes e acontecimentos recentes. A história se repete ano após ano, e o espetáculo nos força a refletir: onde estamos errando?
O texto, composto por relatos e vivências do próprio coletivo, atravessa o espectador com casos de abuso e violência, ora em tom de denúncia, ora com uma leveza ácida. A perseguição à comunidade LGBTQIAPN+ não é algo do passado, e cada obra que se dispõe a abordar o tema torna-se um ponto de luz e referência. "Cabaré Profano" nos convida a existir em um mundo que, muitas vezes, tenta nos apagar. A luta é diária e coletiva, e a arte prova ser a melhor aliada nessa jornada.
Foto: Tadeu Ramos
Sob a direção de Dário Varaschin, o elenco formado por Christian Otero, Davi Jacques, Elix, João Victor Ponge, Mariana Moretti, Rodrigo Delcolli, Samir Alves e Vanessa Manga conduz uma jornada de riso, emoção, sensualidade e crítica. O lema "o que acontece no Cabaré, permanece no Cabaré" é constantemente posto à prova, pois a montagem é um espelho da sociedade. As questões levantadas no palco já estão acontecendo lá fora, em tempo real. E o que estamos fazendo? Apenas assistindo e aplaudindo ou agindo e apoiando os nossos?
Essa mensagem é passada sublinearmente entre uma esquete e outra. E quanto ao "profano" do título? Em uma sociedade guiada prioritariamente pelo dinheiro, talvez não haja nada mais profano do que o afeto, a arte livre e o corpo que se recusa a ser domado.
Foto: Tadeu Ramos
Liberte-se dos preconceitos e confira Cabaré Profano no Bar Queen: teatro de ocupação, memória viva e, acima de tudo, um ato político.
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