Com inspiração em Pier Paolo Pasolini, "Tragédia Linche Vol.I: Os Jovens Infelizes" estreia no Teatroiquè

Montagem transforma o teatro, antigo estúdio de cinema, em cenário

Tragédia Linche Vol.I: Os Jovens Infelizes

Foto: Lucas de Maman

Tensionando os limites entre ação e suspensão, ficção e realidade e teatro e cinema o espetáculo Tragédia Linche Vol. I: Os Jovens Infelizes estreia no Teatroiquè. Depois das temporadas de Ensaio sobre o Terror e Blasted, a nova montagem, que marca o desfecho da Residência Sociedade Arminda no mais novo teatro de São Paulo, radicaliza a investigação do coletivo ao lançar o público em uma fábula urgente sobre violência, justiça e juventude no Brasil contemporâneo.

Dirigida por José Fernando Peixoto de Azevedo, Tragédia Linche Vol. I: Os Jovens Infelizes integra o terceiro e último momento da residência, projeto que articula três espetáculos em torno de uma pesquisa cênica sobre experiências de violência, devastação e terror na contemporaneidade. Ao longo desse percurso, o público acompanha também o aprofundamento de uma linguagem própria, definida pelo diretor como “peça-filme”.

Na trama, dois jovens moradores da periferia de São Paulo decidem vingar o assassinato do pai. O sequestro do principal suspeito, um policial, os coloca diante de uma situação limite, atravessada por impasses, divergências e tensões que ameaçam redefinir seus destinos. “Vamos matar esse fascista”, gritam os irmãos, em um gesto que condensa revolta e desespero.

Tragédia Linche Vol.I: Os Jovens Infelizes

Foto: Lucas de Maman

A dramaturgia parte de textos e entrevistas de Pier Paolo Pasolini, entre eles o artigo Os jovens infelizes, o poema Hierarquia e a última entrevista concedida pelo artista italiano poucas horas antes de seu assassinato, em 1975, intitulada Estamos todos em perigo. Ao aproximar esses materiais da realidade brasileira, o espetáculo investiga como tensões políticas, sociais e econômicas atravessam a juventude contemporânea.

Em um país marcado por recorrentes episódios de justiçamento, com registros semanais de linchamentos ou tentativas, a encenação tensiona a transformação da revolta em justiça pelas próprias mãos, deslocando o olhar para uma pergunta incômoda: o que significa justiça hoje?

Em cena, Caio Nogali, Odá Silva e Samurai Cria transitam entre personagens, depoimentos e fragmentos textuais, contracenando com uma banda e uma cantora, enquanto imagens captadas ao vivo desdobram a ação em múltiplos pontos de vista. Duas câmeras instauram duas instâncias: em preto e branco, uma narrativa ficcional em diálogo direto com o público; em cor, um personagem registra seu próprio documentário. Dois filmes emergem simultaneamente, enquanto o teatro se afirma como campo de fricção entre eles.

Tragédia Linche Vol.I: Os Jovens Infelizes

Foto: Lucas de Maman

“Ao trabalhar aqui, encontramos um espaço que potencializa essa imaginação que nasce justamente do encontro entre teatro e cinema”, comenta Azevedo sobre a parceria com o Teatroiquè. “Não se trata de produzir ilusão, mas de expor o mecanismo e revelar como as imagens e as narrativas são construídas”.

Nesse jogo, os personagens parecem sempre à beira de agir, ensaiando gestos que nunca se completam sem antes precipitar novas catástrofes. A pergunta que atravessa a encenação – “quantos prólogos são necessários para que algo aconteça?” – ecoa como impasse e provocação.

Ficha Técnica: A partir de materiais da obra de Pier Paolo Pasolini. Dramaturgia, Dispositivo de Cena e Direção – José Fernando Peixoto de Azevedo. Atores – Caio Nogali, Odá Silva e Samurai Cria. Direção Musical – Agá Péricles e João da Paz. Desenho de Luz – Thiago Yuta. Assessoria de Imprensa – Nossa Senhora da Pauta. Fotografia – Lucas de Maman. Produção – Anderson Vieira [Corpo Rastreado]. Realização – Sociedade Arminda e Teatroiquê.

TRAGÉDIA LINCHE VOL. I: OS JOVENS INFELIZES

Tragédia Linche Vol.I: Os Jovens Infelizes

Foto: Lucas de Maman

Temporada: De 24 de abril a 25 de maio
Horário: Sextas, Sábados e Segundas, às 21h | Domingos, às 18h
Local: Rua Iquiririm, 110 – Butantã
Ingressos: R$80,00 (intaira) | R$40,00 (meia)
Duração: 90 minutos
Classificação: 16 anos

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