Crítica | O Diabo Não Veste Balenciaga

Espetáculo "Romeu e Romeu", em cartaz no Teatro Itália

Romeu e Romeu

Foto: Ronaldo Gutierrez

Por Lou da Silva

"Romeu e Romeu" é um registro importante de todas as pessoas que sofreram preconceito, homofobia, e tudo mais que a comunidade LGBTQIAPN+ herda e sofre por décadas. As novas gerações encontraram (alguns) caminhos pavimentados para a resistência atual porque outros lá atrás levaram lâmpada na cara em plena Av. Paulista. Um discurso meio óbvio e que pode parecer sedento por reconhecimento. Que seja! É, acima de tudo, uma narrativa para ser protegida da memória seletiva do sistema.

A pressão da família, o abuso das igrejas, a violência e as abordagens jocosas dentro e fora de casa, tudo é ilustrado sob o olhar atento de uma figura biblicamente onipresente nos momentos de rancor, ódio e medo. Um anjo sussurrando dúvida e malícia nos ouvidos da maldade intrínseca a todas as pessoas, até mesmo dentro da comunidade LGBTQIAPN+. Essa alegoria é belíssima. A interpretação é de Juan Alves. Um nome para ficarmos atentos.

Romeu e Romeu

Foto: Ronaldo Gutierrez

Situações traumatizantes que reverberam nos conflitos de Romeus, Julietas e seus próximos. Angústias que o vento não levou. Um tema necessariamente recorrente e cuja coreografia do inigualável Ciro Barcelos banha de frescor performativo, trazendo um diferencial no tratar do assunto que hoje nem é mais tão tabu, mas ainda é urgente. Haja vista o número de jovens que tiram a própria vida numa real pandemia jogada para baixo do tapete da hipocrisia midiática. A direção de movimento do Ciro não nos permite descanso. Muito menos ao elenco.

Falando neles, todos estão de parabéns, mas preciso comentar sobre Pedro Pillar. Ele traz o ímpeto corajoso da juventude para seu personagem "Romeuzinho". Tem o ritmo da comédia nas tiradas cômicas e segundos depois já imprime o peso de um abuso! Transita da tensão do oprimido ao tesão do desejado. Da brutalidade da luta à delicadeza da dança. Na peça "Boate Bolero", o ator já mostrou segurança para protagonizar. Em Romeu & Romeu ele comprova isso despido de máscaras, estereótipos ou elementos de cena.

Romeu e Romeu

Foto: Ronaldo Gutierrez

Assim o jogo com o "Romeuzão" (peço licença para chamá-lo assim), interpretado por Guilherme Chelucci, flui naturalmente, mesmo sendo personagens com características por vezes opostas. Mais robusto, rude e bem resolvido, o elo mais experiente do casal é mais pé no chão, sem perder os arroubos de paixão, claro. "Zinho e Zão" seriam o ID e o Ego da face gay, com seus alteregos em riste num eterno embate com o superego julgador representado aqui pela sociedade "de bem".

Romeu e Romeu

Foto: Ronaldo Gutierrez

Preciso chamar a atenção também para o figurino. Com aquela doce e pecaminosa aura Dzi Croquettes. Um toque de trapo com o glamour do brilho, a brejeirice do retalho com nariz empinado do tecido fino, um beijo prolongado entre luxo e lixo. Mais um hipnotizante trabalho de Ciro Barcelos que assina o figurino, mostrando que apesar do hype Balenciaga, o diabo sempre se vestiu e continuará criativamente elegante.

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