"Let's play That Ou Vamos Brincar Daquilo" com Tuca Andrada
Foto: Lou da Silva
Por Lou da Silva
Assistindo ao monólogo de Tuca Andrada sobre Torquato Neto, despertou-me dois arrependimentos: primeiro de nunca ter me aprofundado na obra de Torquato Neto, na sua biografia e escrita; segundo de não ter ido ver Tuca Andrada no teatro antes, conterrâneo que vejo na TV desde "Que Rei Sou Eu?". Sinto-me envergonhado até! Mas, feliz de ter descoberto o meu deslize a tempo de mergulhar na arte de ambos.
A peça tem um cenário minimalista. Páginas com poemas de Torquato cobrem o palco e um banco preto de madeira no centro. Com este, Tuca expressa acolhimento, cansaço, prisão, euforia e até se tira um som batucado! É preciso aqui parabenizar o belo trabalho de movimento da diretora Maria Paula Costa Rêgo. A luz demarca os momentos cênicos, fazendo-os fluir naturalmente dos números musicais à voz gravada do Torquato, da tensão urgente de alguns momentos ao aconchego cirandeiro de outros.
Foto: Lou da Silva
Desde a chegança, o público já fica confortável no papo com o ator, que microfonado e de áudio aberto, inclui a caixa teatral inteira nas conversas. Pede-se, então, licença à solene e ritualística arte teatral para dizer que é permitido fotografar e gravar, com cautela, o espetáculo. Isto está longe de ser uma crítica às demais peças. Só enfatizo que aqui a decisão casa muito bem com a proposta do monólogo e anula ainda mais a distância entre palco e plateia. Esta, inclusive, tem a opção de se posicionar em semi-arena, pertinho do ator.
Tuca canta. E canta muito bem! Seu timbre traz à lembrança saudosas vozes do rádio. Tuca dança. E dança muito bem! Ele tem o gingado e isso amolece o grave da voz. De repente, a gente tá no remelexo com ele. Essa conquista manhosa se dá também por conta da sonoplastia, ao vivo, dos incríveis músicos Caio Cesar Sitonio e Pierre Leite, percussionando o desenho sonoro do espetáculo.
Foto: Lou da Silva
Migrando entre si mesmo, Torquato e demais personagens dessa envolvente contação de história(a) brasileiríssima(a), Tuca dá continuidade a um processo íntimo iniciado ao se deparar com o livro "Torquatália" anos atrás. Ele é tão respeitoso com a figura e a obra do artista retratado, tão delicado ao tratar dos minutos finais da pessoa, mas sem anular a si mesmo, sem esconder o ator presente. Pelo contrário, este monólogo tem uma assinatura firme, que se constrói com o tempo, com uma vida de dedicação, com características tão próprias e singulares que eu diria tratar-se de um outro movimento cultural, a Tucália.
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