Crítica | Quanto é o programa?

Espetáculo "Tráfico", com Robson Toririni, em cartaz no Teatro Estúdio.

Tráfico

Foto: Gabriel Nogueira

Por Lou da Silva

O cenário prendeu minha atenção no primeiro bater dos olhos! simples e hipnotizante. Uma estrutura de ferro centralizada no alto. Ela representa o guidão de uma motocicleta que, posicionado de ponta cabeça, deixa os dois espelhos laterais, recôncavos no estilo olho de peixe, apontados para a plateia. Eles estão levemente na diagonal em relação ao eixo da estrutura. Dessa forma, aquela engenharia aparentemente simples, proporciona à plateia diferentes ângulos da cena.

O público mais atento perceberá e guardará na memória planos únicos que só do seu assento poderia experienciar. Quem assina a produção de arte é Gilberto Gawronski. Genial no simples. E ainda fiquei com a impressão de que a estrutura remete a um útero! Principalmente quando o personagem, Alex, posiciona-se bem embaixo como se nascera dalí. Mas isso pode ser viagem muito particular do meu lado dramaturgista.

Tráfico

Foto: Lou da Silva

A peça, adaptação de Robson Torinni e Victor Garcia Peralta, começa e um ponto intrigante logo capta minha atenção! É a dicção do personagem que nos primeiros minutos me fez cair na armadilha de pensar que era uma dificuldade peculiar do aparelho fonador do ator. Então, os movimentos agitados de infância interrompida, de adolescente aventureiro, dominam o palco! E isto combina perfeitamente com aquele jeito de falar!

Daí fica claro que as palavras cortadas pela metade, as sílabas agarradas, a cadência acelerada, fazem parte da composição do personagem. Vem da sua genesis inspirada na jaqueta de couro, no jeans apertado, no sonho de vida que é ter uma moto. Senti-me até ingênuo nas artes depois disso. Devo admitir que a construção do GP e matador de aluguel Alex foi tão detalhada, provavelmente num processo criativo de ator e direção, que sua dicção me enganou direitinho.

Tráfico

Foto: Ricardo Brajterman

Às vezes Torinni faz o possível para não entendermos mesmo todas as frases. É como se ao entrar nesse mundo de tráfico, prostituição e morte; fosse obrigatório estar sempre alerta para percorrer caminhos tortuosos e com pouca luz. Dessa forma, a plateia debruça focada no texto e é guiada por casos violentos, dolorosos e mesquinhos. Situações que revelam um cuidado de pesquisa e entendimento sobre a esquina dos garotos que se tornam criminosos antes mesmo de se tornarem homens.

A luz do espetáculo segue as angústias e agonias do Alex em tons de vermelho, amarelo e verde. Às vezes branca. Quando, por exemplo, a sonoplastia nos concede momentos de calmaria com uma trilha sonora afetiva. Junto com pitadas pontuais de metalinguagem, a encenação e as músicas nos resgatam daquele fundo de poço. Lembramos rapidamente que estamos num ambiente seguro, teatral.

Tráfico

Foto: Victor Pollak

Não por muito tempo! A intensidade da interpretação do Torinni, meu conterrâneo (descobri ontem), nos atrai novamente como um ímã e sem chance de resistência para a mesma corda bamba de antes. Uma entrega e atuação tão profundas que quase perdoamos o Alex. Porém, a dramaturgia dá conta de manter o protagonista anti-herói, melhor dizendo vilão dos outros e de si mesmo, no rastro do julgamento que a nossa sociedade, até com requintes de perversidade iguais aos do meliante, entende por ser merecido.

Afinal, quando um jovem decide partir para o crime, é uma decisão. Independente das circunstâncias que o levaram a isto, o submundo dá o troco, mesmo que seja em três parcelas. É um texto original de Sérgio Blanco, com temas urgentes como feminicídio, abandono e homofobia. Um espetáculo em três atos que só não passam voando porque as asas do Alex são cortadas desde muito cedo. Logo cedo ele precisou se acostumar com a pergunta: "Quanto é o programa?"

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