Montagem remete a um naufrágio real que expôs a brutalidade das engrenagens coloniais e da desigualdade social.
Foto: Bob Sousa
Em 1816, a fragata francesa Medusa naufragou na costa da África após a negligência de um capitão nomeado por influência política. Sem botes suficientes, reservados aos oficiais e homens brancos, cerca de 150 pessoas foram abandonadas em uma balsa improvisada. Fome, sede, violência e desespero reduziram o grupo a apenas 15 sobreviventes após 2 semanas. O episódio chocou a França e foi transformado por Théodore Géricault no monumental quadro A Balsa da Medusa (1818), uma denúncia da desumanização produzida por sistemas que hierarquizam vidas e naturalizam o descarte humano.
Em Travessia, essa imagem histórica torna-se um dispositivo dramatúrgico para refletir os naufrágios civilizatórios do presente: migrações forçadas, fronteiras militarizadas, polarização ideológica e os mecanismos de poder que decidem quem merece proteção e quem pode ser lançado ao mar.
“Não interessava fazer uma reconstituição histórica da balsa”, explica a autora e diretora Gabriela Mellão. “O que nos moveu foi colocar essa imagem em fricção com as histórias reais dos artistas em cena, criando um espelhamento entre o naufrágio colonial e os naufrágios contemporâneos que seguimos produzindo.”
O espetáculo nasceu de um processo colaborativo de quase dois anos entre Mellão, atores reconhecidos da cena brasileira — como Miriam Rinaldi, Vitor Britto e Rodrigo Bolzan — e artistas em situação de deslocamento: Dani Mara (brasileira indígena), Prudence Kalambay (República Democrática do Congo), Mariama Bintu Bah (Gâmbia/Senegal), Mario Tadeo (boliviano indígena), Victor Gee Rosales (Venezuela) e Shambuyi Wetu (República Democrática do Congo).
A diversidade, aqui, não aparece como tema ou ilustração: é o próprio método de criação. “Travessia só existe porque corpos, histórias e cosmologias muito diferentes tiveram uma troca real, sustentando conflitos e visões de mundo distintas em nome de uma criação conjunta”, afirma Mellão.
Foto: Bob Sousa
A dramaturgia constrói um tecido de camadas narrativas que se entrelaçam. O episódio da Medusa dialoga com depoimentos autobiográficos, fragmentos documentais, tragédia grega e mitologia indígena. Em uma de suas linhas, atores disputam os papéis de Clitemnestra e Egisto em uma audição fictícia, revelando tensões entre identidade, representação e poder. Situações envolvendo filas burocráticas, discursos de inclusão, mercantilização da diversidade e afetos administrados por lógicas de mercado atravessam a cena.
Uma dimensão mítica também irrompe na narrativa: a figura de uma serpente ancestral engolida por um corpo humano, aprisionada em um sistema urbano que não reconhece sua língua, seu ritmo ou sua cosmologia. Condenada a adaptar-se para sobreviver, essa imagem alegórica traduz a violência silenciosa que opera quando indivíduos e culturas precisam caber em regras que negam suas cosmogenias.
Elementos da tragédia grega estruturam a dramaturgia. Como nos dramas antigos, os personagens se veem confrontados por forças maiores do que suas vontades individuais, engrenagens políticas e sociais que frequentemente determinam sua sorte. O coro, porém, é reinventado. Em vez de representar uma comunidade unificada, torna-se um corpo múltiplo. Português, espanhol, francês e línguas africanas e indígenas atravessam a cena, compondo uma polifonia que encarna um tempo em trânsito.
Foto: Bob Sousa
Visualmente, o espetáculo cria quadros vivos inspirados na pintura de Géricault, transformando os atores em dispositivos narrativos e plásticos. Não há protagonismo individual: o que se ergue em cena é um coletivo heterogêneo que sustenta a balsa, questiona o poder e humaniza as diferenças.
A pesquisa que deu origem à obra nasce do legado intercultural do diretor inglês Peter Brook, cuja prática teatral buscou reinventar o palco a partir do encontro real entre culturas. Em Travessia, esse impulso é revisitado à luz das urgências do século XXI.
O espetáculo transforma o teatro em um espaço de atravessamento entre culturas, tempos históricos e modos de existir. Um laboratório sensível onde ainda se pode experimentar outros pactos de convivência, reimaginar o futuro e, mesmo à deriva, recusar a lógica que lança sempre os mesmos corpos ao mar.
O espetáculo convida o espectador a embarcar na balsa e o convoca a refletir sobre as posições que ocupa dentro dela. Quem sabe, inspirando o ato praticado no próprio processo da obra: a insistência em reconhecer o outro em sua plena humanidade.
Ficha técnica
Dramaturgia de Gabriela Mellão a partir de criação coletivaDireção de Gabriela Mellão
Com Dani Mara, Mariama Bintu Bah, Mario Tadeo, Miriam Rinaldi, Prudence Kalambay, Rodrigo Bolzan, Vitor Britto, Victor Gee Rosales, Shambuyi Wetu
Coreografia: Reinaldo Soares
Desenho de Luz: Aline Santini
Assistente de Iluminação: Gabriela Ciancio
Trilha Sonora Original: Federico Puppi
Técnico de Som: Henrique Berrocal
Cenografia: Camila Schmidt
Cenógrafa assistente: Irina Bertolucci Chermont
Figurinista: Kledir Salgado
Assistente de Figurino: Cicer Ryan (Ateliê Fhom)
Assistente de Direção e Preparador de Ator: Daniel Passi
Fotografia: Bob Sousa
Tratamento de Imagem: Leonardo Palma
Designer Gráfico: Victor Gee Rosales
Produção: Corpo Rastreado
TRAVESSIA
Foto: Bob Sousa
Temporada: De 01 de abril a 03 de maio
Horário: Quinta a sábados, às 20h | Domingos, às 18h30
Local: Rua Padre Adelino, 1000 - Belenzinho
Ingressos: R$ 50,00 (inteira) | R$ 25,00 (meia-entrada) | R$ 15,00 (Credencial Plena)
Classificação: 12 anos
Duração: 70 min
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